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A polêmica da obrigatoriedade das máscaras. Mas 100 anos atrás…

6 de agosto de 2020
Em 1918, com a Gripe Espanhola atacando e matando a população dos Estados Unidos, o prefeito de São Francisco, James Rolph Jr., decretou a obrigatoriedade do uso de máscaras. A decisão foi tomada em 22 de outubro e São Francisco se tornou a primeira cidade americana a exigir proteção facial, com quatro camadas de espessura. Ela deveria ser usada em todos os locais públicos e em grupos de duas ou mais pessoas, exceto durante as refeições. Logo depois, outras seis cidades tomaram a mesma decisão: Seattle, Oakland, Sacramento, Denver, Indianápolis e Pasadena. Cem anos depois, a história não mudou muito.

Os rebeldes de 1918 – cerca de 20% da população, calculava-se – reclamavam de aparência e da falta de conforto e liberdade – mesmo depois de a Gripe Espanhola ter matado cerca de 195.000 americanos apenas em outubro. As máscaras eram chamadas “focinhos de porcos” e “reservatórios de germes”. Algumas pessoas cortaram buracos em suas máscaras para fumar charutos. Outros as prendiam em seus cães como forma de zombaria. Até ladrões as usavam para roubar bancos. Artigo de Alma Whitaker, publicado justamente na edição de 22 de outubro do “The Los Angeles Times”, dizia que as celebridades de Hollywood não gostavam de usá-las “porque era horrível passar despercebido”.

“Use máscara ou vá para a cadeia” (Créditos: Vintage Space/Alamy)


O tipo mais simples era feita de gaze dobrada, fixada com elástico ou fita adesiva. A penalidade para o não uso variava de 5 a 10 dólares, ou até 10 dias de prisão. Em 9 de novembro de 1918, o jornal “The San Francisco Chronicle” publicou que 1.000 pessoas tinham sido presas. Policiais e juízes tiveram que estender seus turnos de trabalho. O ferreiro James Wisser foi preso em frente a uma farmácia, incitando as pessoas a descartarem suas máscaras. Um inspetor de saúde, Henry D. Miller, repreendeu Wisser. Os dois começaram uma briga e o inspetor disparou quatro tiros contra o ferreiro. Outro caso envolveu o ferroviário Frank Cocciniglia. Preso por se recusar a usar máscara, ele foi levado diante de um juiz. Declarou que “não estava disposto a fazer nada que não estivesse em harmonia com seus sentimentos”. Foi condenado a cinco dias de prisão e comemorou: “Na cadeia, não precisarei usar máscara”.

A criação da Liga Anti-Máscara

O decreto das máscaras de São Francisco teve duração de um mês. Acabou ao meio-dia de 21 de novembro. A cidade comemorou. Até os sinos das igrejas tocaram. Muitos cidadãos arrancaram a proteção facial e passaram a pisá-las no meio da rua. Sorveterias distribuíram guloseimas. Mas uma segunda onda do vírus apareceu. Foram 1 800 casos e 101 mortes nos primeiros dias do ano novo. Em 17 de janeiro de 1919, São Francisco voltou a exigir o uso da máscara, deflagrando uma oposição ainda mais irritada.  Em São Francisco, o novo decreto levou à criação da “Liga Anti-Máscara”, liderada por uma mulher, E.C. Harrington, advogada, ativista social e opositora política do prefeito. Reuniu cerca de 5 mil pessoas.  “As máscaras se transformaram em um símbolo político”, disse Brian Dolan, da Universidade de São Francisco, à reportagem de Christine Hauser, publicada no “The New York Times”, de 3 de agosto de 2020.

Anúncio que chamava para o protesto dos Anti-máscaras (Créditos: UC Berkley)


“É a lei mais impopular já colocada nos registros de Pasadena”, declarou o chefe de polícia W.S. McIntyre aos jornalistas. “Somos amaldiçoados por todos os lados.” Os vendedores de charutos disseram que perderam clientes. Os barbeiros ficaram com medo da falência. Os comerciantes reclamaram que o movimento caiu porque mais pessoas ficavam em casa. As detenções aumentaram, mesmo entre os ricos. Ernest May, presidente do Banco Nacional de Segurança de Pasadena, e cinco amigos endinheirados foram presos num hotel. Eles usavam máscaras, mas não cobriam o rosto. Apenas em 1º de fevereiro, com o aval dos médicos, São Francisco aboliu de vez com a obrigação das máscaras.

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