O pugilista capixaba Esquiva Falcão viajou até Macau, região colonizada por Portugal e hoje administrada pela China, para fazer neste sábado sua terceira luta profissional. Sua invencibilidade estará em jogo contra o coreano Eun-Chang Lee. De Jacaraípe, bairro no município de Serra (ES), até o distrito chinês, ele teve que percorrer cerca de 16.000 km. Esquiva enfrentou a viagem de mais de 20 horas em um assento de avião da primeira classe – segunda vez na vida que ele desfruta a mordomia. Depois da medalha de prata olímpica, a vida de Esquiva Falcão Florentino mudou. O pugilista brasileiro de 24 anos, que adotou uma rotina de sessões duplas de treinos diários em Las Vegas, nos Estados Unidos, atravessou o mundo por um sonho de “ser maior que o Popó”.

ESQUIVA FALCÃOSonho que começou a bordo do velho ônibus Seletivo 1801, que parava perto de sua casa. Em seu letreiro, era possível ler o destino: “Rodoviária – Via Laranjeiras”. O garoto, vestido com boné e roupas simples (mas bem lavadas pela mãe Maria Olinda), deixou para trás os treinos feitos no quintal de casa. A preparação para lutas era toda feita pelo pai Touro Moreno, lenda capixaba da nobre arte. Na falta de equipamento melhor,  folhas de bananeira serviam de sacos de pancada. A despedida foi dura. Esquiva subiu no ônibus para enfrentar a vida.

O destino quis que ele fosse parar em Santo André, na Grande São Paulo. Foi treinar com a Seleção Brasileira de boxe, na época comandada por Cláudio Aires. Certa noite, com os hormônios dos 20 anos em ebulição,  Esquiva Falcão escapou da concentração  no ginásio Pedro Dell’Antonia. O segurança o flagrou e fez o relatório para  o treinador. Na manhã do dia seguinte, o lutador foi humilhado na frente de todos os companheiros e funcionários. “O Cláudio disse que eu não chegaria a lugar algum, que eu era um lixo”, diz Esquiva. “Eu me controlei para não agredi-lo, mas até hoje eu tenho vontade  de dar um murro na cara dele.”  Aquela foi a primeira das duas vezes em que ele teve vontade de socar alguém fora de um ringue.

Em 2012, Esquiva viajou para disputar as Olimpíadas de Londres. Num dos primeiros dias, ele estava almoçando com o companheiro Julião Neto no refeitório da Vila Olímpica quando deu de cara com um de seus ídolos. “Fiquei extasiado quando vi o Usain Bolt”, lembra. “Fui até ele e comecei a falar: ‘Bolt, Bolt, Bolt.’ Ele estava sentado, mexendo no celular. Um amigo dele me empurrou e disse: ‘no picture’ [sem foto]. Fiquei muito chateado. O Julião virou e me disse: ‘Se a gente bate naquele negão, ele não corre nunca mais.’”

ULSAIN BOLT NO TIO A resposta viria no ringue do ginásio ExCeL London.O brasileiro chegou às semifinais do torneio. Na principal luta de sua vida, enfrentou o inglês Anthony Ogogo e uma torcida de 10 mil ingleses. Numa indiscutível vitória, levou às lágrimas amigos e parentes de Jacaraípe. A luta final foi cercada de controvérsias. Esquiva perdeu para o japonês Ryota Murata no último round, depois de o juiz ter tirado dois pontos do brasileiro por empurrões. Mesmo assim, a medalha de prata credenciou o boxeador a carregar a bandeira brasileira na cerimônia de encerramento das Olimpíadas – e a viajar pela primeira vez na vida de primeira classe. Ele voltou ao lado do velejador Robert Scheidt e do irmão Yamaguchi, os dois medalhistas de bronze, e perdeu a conta de quantas vezes teve que posar para fotos com passageiros e tripulantes.