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O dia em que Esquiva Falcão foi esnobado por Usain Bolt e outras histórias

30 de maio de 2014

O pugilista capixaba Esquiva Falcão viajou até Macau, região colonizada por Portugal e hoje administrada pela China, para fazer neste sábado sua terceira luta profissional. Sua invencibilidade estará em jogo contra o coreano Eun-Chang Lee. De Jacaraípe, bairro no município de Serra (ES), até o distrito chinês, ele teve que percorrer cerca de 16.000 km. Esquiva enfrentou a viagem de mais de 20 horas em um assento de avião da primeira classe – segunda vez na vida que ele desfruta a mordomia. Depois da medalha de prata olímpica, a vida de Esquiva Falcão Florentino mudou. O pugilista brasileiro de 24 anos, que adotou uma rotina de sessões duplas de treinos diários em Las Vegas, nos Estados Unidos, atravessou o mundo por um sonho de “ser maior que o Popó”.

À esquerda, Esquiva em seus tempos de garoto

Sonho que começou a bordo do velho ônibus Seletivo 1801, que parava perto de sua casa. Em seu letreiro, era possível ler o destino: “Rodoviária – Via Laranjeiras”. O garoto, vestido com boné e roupas simples (mas bem lavadas pela mãe Maria Olinda), deixou para trás os treinos feitos no quintal de casa. A preparação para lutas era toda feita pelo pai Touro Moreno, lenda capixaba da nobre arte. Na falta de equipamento melhor,  folhas de bananeira serviam de sacos de pancada. A despedida foi dura. Esquiva subiu no ônibus para enfrentar a vida.

O destino quis que ele fosse parar em Santo André, na Grande São Paulo. Foi treinar com a Seleção Brasileira de boxe, na época comandada por Cláudio Aires. Certa noite, com os hormônios dos 20 anos em ebulição,  Esquiva Falcão escapou da concentração  no ginásio Pedro Dell’Antonia. O segurança o flagrou e fez o relatório para  o treinador. Na manhã do dia seguinte, o lutador foi humilhado na frente de todos os companheiros e funcionários. “O Cláudio disse que eu não chegaria a lugar algum, que eu era um lixo”, diz Esquiva. “Eu me controlei para não agredi-lo, mas até hoje eu tenho vontade  de dar um murro na cara dele.”  Aquela foi a primeira das duas vezes em que ele teve vontade de socar alguém fora de um ringue.

Esquiva (de verde) e Julião Neto (branco), no refeitório em que Usain Bolt esnobou o brasileiro

Em 2012, Esquiva viajou para disputar as Olimpíadas de Londres. Num dos primeiros dias, ele estava almoçando com o companheiro Julião Neto no refeitório da Vila Olímpica quando deu de cara com um de seus ídolos. “Fiquei extasiado quando vi o Usain Bolt”, lembra. “Fui até ele e comecei a falar: ‘Bolt, Bolt, Bolt.’ Ele estava sentado, mexendo no celular. Um amigo dele me empurrou e disse: ‘no picture’ [sem foto]. Fiquei muito chateado. O Julião virou e me disse: ‘Se a gente bate naquele negão, ele não corre nunca mais.’”

Os medalhistas Yamaguchi, Esquiva Falcão e Robert Scheidt

A resposta viria no ringue do ginásio ExCeL London.O brasileiro chegou às semifinais do torneio. Na principal luta de sua vida, enfrentou o inglês Anthony Ogogo e uma torcida de 10 mil ingleses. Numa indiscutível vitória, levou às lágrimas amigos e parentes de Jacaraípe. A luta final foi cercada de controvérsias. Esquiva perdeu para o japonês Ryota Murata no último round, depois de o juiz ter tirado dois pontos do brasileiro por empurrões. Mesmo assim, a medalha de prata credenciou o boxeador a carregar a bandeira brasileira na cerimônia de encerramento das Olimpíadas – e a viajar pela primeira vez na vida de primeira classe. Ele voltou ao lado do velejador Robert Scheidt e do irmão Yamaguchi, os dois medalhistas de bronze, e perdeu a conta de quantas vezes teve que posar para fotos com passageiros e tripulantes.

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