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Quem eram os (nada) bobos da corte

6 de maio de 2020

Bobo é um dos primeiros xingamentos que a gente aprende e que recebe também. Ser bobo, porém, já foi algo bastante importante e aí tem História.

Certamente você já percebeu que estou me referindo aos famosos bobos da corte. A palavra “bobo” vem do latim balbus, que significa “gago”. Muito do humor deles vinha do falar errado, de gaguejar, de apresentar dificuldades de fala. Havia também deficiências corporais, entre elas o nanismo – coisa que muitos usam até hoje como objeto de graça. E essa “corte” aí era todo lugar em que vivia um nobre – até de títulos menores, como cavaleiros. Como não podia trabalhar, a aristocracia inventava caçadas, torneios… e alguma atividade de diversão. Aí entravam em cena os bobos.

Nossa ideia geral é que isso acontecia na Europa medieval. E era, mas não só. O, digamos, formato das cortes não mudava muito pelo mundo afora. Daí termos esses responsáveis pelo entretenimento espalhados por culturas tão diversas como a egípcia, a grega, a romana, a asteca e a japonesa.

Os bobos da corte valiam por um circo inteiro

Por isso, há outras denominações para essa função, como no inglês jester, que vem de contador de histórias, menestrel;  fool, de origem latina, com a mesma raiz de bufão, cheio de vento, sem conteúdo; e clown, que, antes de ser palhaço, é a designação de colono ou caipira. Na França, é fou, louco.

O que faziam eles? Bem mais do que fazem palhaços hoje! Na verdade, os bobos da corte valiam por um circo inteiro: cantavam, dançavam, faziam malabarismo e acrobacias, contavam histórias – e aprontavam palhaçadas. Eram respeitados por dizerem aos poderosos coisas que aos outros custaria a cabeça – ou, no mínimo, uma temporada na masmorra. O dramaturgo inglês William Shakespeare nos oferece alguns exemplares de bobos altamente interessantes e inteligentes. O maior deles está na peça Rei Lear, na qual o bobo demonstra ser um excelente filósofo, bem mais sábio que o rei.

O bobo da corte no espetáculo “Rei Lear”

Os artistas gozavam do apreço e da proteção do próprio rei

Na corte espanhola de Felipe IV, na primeira metade do século 17, Diego Velázquez, grande mestre da pintura barroca, retratou os artistas da corte real, todos anões. Era uma espécie de “coleção” do rei. Pois nenhum retrato deles pintado por Velázquez demonstra qualquer situação risível. Ao contrário, homens e mulheres são mostrados fora de suas atividades artísticas, todos vestido como os demais fidalgos de uma das mais poderosas e ricas cortes reais da Europa, na maior dignidade. Afinal, eles gozavam do apreço e da proteção do próprio rei.

“O bobo da corte Sebastian Morra”, por Diego Velázquez

E assim tem sido. Da mais remota antiguidade até nossos dias, todas as cortes, reais ou metafóricas, no mundo inteiro, têm lá os seus bobos. Alguns só nos fazem rir. Outros dão muito o que pensar. É isso. E me desculpem se disse alguma bobagem… 

Warde Marx, especial para o “Você é Curioso?” (08/02/2020)

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