Um navio afunda, há poucas vítimas e, anos depois, ele é reencontrado, sua carga, em grande parte, é recuperada e pode ser reutilizada. É uma boa notícia? Não exatamente. E aí tem História. O navio é o cargueiro italiano Laura Cosulich. Em julho de 1941, com a Segunda Guerra Mundial a toda, o Laura sai de Veneza rumo à África, levando suprimentos para forças italianas que tentavam abocanhar um pedaço do continente negro. São cerca de 5.700 toneladas, incluindo bebidas, cigarros, tecidos, armas, munições e uma grande quantidade de explosivos (havia entre 700 e 1.500 toneladas de trinitrotolueno ou TNT).

Quando passava pela localidade de Salinas Jônicas, na Calábria, o cargueiro foi torpedeado e afundado pelo submarino inglês Upholder. Alguns poucos tripulantes morreram no naufrágio. O navio, inteiramente submerso, foi esquecido e passaram-se os anos. Então, em algum ponto entre os anos 1990 e 2000, a versão calabresa do crime organizado, a temida Ndrangheta, apareceu com explosivos. Sim: algumas famílias de Reggio Calábria tinham encontrado um verdadeiro tesouro. A Máfia, que é o crime organizado da Sicília, comprou algumas dezenas de quilos de TNT da Ndrangheta, que tinha passado a ser uma fornecedora privilegiada do submundo europeu.

 

Em 2014, as autoridades acabaram chegando ao Laura Cosulich e resgataram 121 bastões de TNT de 200 gramas, o que dá uns 24 quilos. É bastante. Lacraram e cimentaram as portas do navio. Mas ainda havia muita explosão sem explicações. Só em 2015, em meio a nova operação, entenderam tudo: policiais encontraram armas, munições, detonadores e dez bastões de TNT, com mais de 2 quilos cada um, nas mãos de criminosos. Aqueles 24 quilos não eram nada.