Histórias de micronações que se declaram independentes

17 de março de 2021
“A Incrível História da Ilha das Rosas”, lançado em dezembro de 2020 na plataforma de streaming Netflix, conta a saga da pequena plataforma marítima no Mar Adriático, na costa de Rimini, na Itália, que se declarou independente em 1º de maio de 1968. A ideia foi do engenheiro idealista Giorgio Rosa. A construção do clube em águas internacionais levou quatro anos. O fato revoltou o governo da Itália. Autoridades disseram que a intenção de Rosa seria ganhar dinheiro com a exploração do local sem pagar impostos. A plataforma de Rosa foi ocupada por forças policiais em 26 de junho. Ela foi implodida em 1º de fevereiro de 1969. Ao receber a sinopse do filme, uma diretora da Netflix teria declarado: “Essa história não pode ser verdade”. Era!

 

Já contamos aqui a história de Sealand, outra micronação que nasceu numa plataforma marítima.

 

Em entrevista ao programa “Olá, Curiosos!”, o professor Tiago José Berg, autor do livro “Bandeiras de Todos os Países do Mundo”, calculou que cerca de 100 micronações assim foram criadas nos últimos 120 anos. Em comum, elas costumam criar hino, bandeira, brasão e moeda. Também emitem selos e títulos de cidadania, que são suas principais fontes de renda. Berg contou curiosidades das mais famosas:

 

 

Saiba mais sobre as micronações apresentadas por Tiago José Berg:

 

Hutt River 

 

Em 1970, um fazendeiro chamado Leonard George Casley não concordava com os impostos cobrados pelo governo australiano. Valendo-se de uma lei de 1495, ele declarou a sua propriedade de 75 km2 um estado soberano em 21 de abril daquele ano. A lei dizia que qualquer território que se auto sustentasse e continuasse leal à rainha poderia fazer isso. Sua Alteza Real Príncipe Leonard I transformou a fazenda num atração turística. Cobrava 2,5 dólares pelo “visto de entrada”. Tinha atrações para os visitantes passarem o dia inteiro gastando por lá. Leonard morreu em 2017 e deixou como sucessor o filho, Graeme. A micronação deixou de existir no final de 2020 por causa da crise financeira gerada pela pandemia do coronavírus.

 

Ladônia

 

O artista sueco Lars Vilks construiu duas esculturas em 1980 em uma área de preservação ambiental chamada Kullaberg, no sul da Suécia. Como ficava numa área de difícil acesso, o conselho da cidade só foi tomar conhecimento delas dois anos depois. O conselho não gostou e pediu às autoridades que “Nimis” e “Arx” fossem retiradas dali. Começou uma longa batalha jurídica, que acabou com a derrota de Vilks. Em sinal de desagravo, ele declarou independente aquela área de 1 km2 em 2 de junho de 1996. Ninguém o levou a sério. Em 2020, a República Real Ladônia (tem rainha e presidente)  contava com 22 mil cidadãos. Nenhum deles mora lá. São associados que pagaram 12 dólares para ganhar essa cidadania.

 

Liberlândia

 

 

O tcheco Vît Jedlicka descobriu que uma ilha fluvial desabitada de 7 km2, numa curva do Rio Danúbio, não era reconhecida oficialmente nem pela Croácia nem pela Sérvia (embora ela estivesse sendo administrada pela Croácia). Aí ele declarou Liberlândia uma república independente em 2015. Em 15 de abril de 2015, ele declarou a independência da República Livre de Liberlândia e se auto proclamou presidente. Os dois países não gostaram da ideia e chegaram a prender Jedlicka quando ele tentou chegar à ilha – foram criadas medidas policiais para evitar que qualquer um vá até o local. Agora os dois países discutem a posse do território. Liberlândia recebeu 500 mil pedidos de “cidadania” de pessoas de 90 países.

 

Principado de Trinidad  

 

Não tivemos nenhum caso de micronação no Brasil? Sim, tivemos! Em 1893, o americano James Harden-Hickey tomou posse da ilha inabitada de Trindade, no litoral brasileiro, e a rebatizou de Principado de Trinidad. Ele tinha conhecimento que nenhum país havia reivindicado aquela ilha do Atlântico Sul. James I, Príncipe de Trinidad, como se autoproclamou, nomeou um Secretário de Estado, abriu um escritório consular em Nova York, começou a vender títulos para a construção do país e comprou um barco para o transporte de colonos. Mas os sonhos de Harden-Hickey duraram pouco. Em julho de 1895, os ingleses se apropriaram da ilha – mas também por pouco tempo. A diplomacia brasileira, com o apoio de Portugal, conseguiu ficar com a posse da ilha, provando que ela havia sido descoberta por navegadores portugueses em 1502. O arquipélago de Trindade e Martim Vaz fica a 1 200 quilômetros de Vitória, no Espírito Santo, Estado do qual faz parte. Em Trindade, há apenas um posto oceanográfico da Marinha brasileira.

 

República da Concha  

 

Este é um caso mais de marketing do que exatamente de rebeldia. Em 18 de abril de 1982, a Patrulha da Fronteira dos Estados Unidos bloqueou a estrada que liga a Florida aos Florida Keys. Exigia documentos, revistava carros. A alegação era impedir a entrada de imigrantes ilegais no continente. Os habitantes dos Keys ficaram revoltados:  estavam se sentindo estrangeiros ao visitar um outro país. Dennis Wardlow, prefeito de Key West, tentou acabar com o bloqueio – e o congestionamento, que estava afugentando os turistas. Perdeu na Justiça.  Disse então que Florida Keys iria pedir independência dos Estados Unidos. No dia 23 de abril de 1982, Wardlow se apresentou como primeiro-ministro da República da Concha e “e declarou guerra aos Estados Unidos”. A encenação rendeu muita publicidade e o bloqueio foi cancelado. O nome escolhido para a micronação faz uma referência a colonos britânicos que se revoltaram com a cobrança de impostos pela coroa em 1646. Disseram que preferiam “comer conchas a pagar impostos”. A concha, símbolo de resistência, é destaque na bandeira do fictício pais. Todo mês de abril, Key West faz um festival para celebrar a independência da República da Concha.

 

República de Minerva

 

O Atol de Minerva fica ao lado dos arquipélagos de Fiji e Tonga. O lituano Michael Oliver, que fez fortuna em Las Vegas, queria criar um país em que não precisasse pagar impostos. Declarou a independência da República de Minerva em 19 de janeiro de 1972 e escolheu Morris Davis como presidente. Para isso, enviou um comunicado para os países vizinhos. Só que Tonga reivindicou a área e os países da Oceania concordaram. Os tonganeses recuperaram a posse do atol naquele ano mesmo e Oliver demitiu o presidente. Em 1982 foi a vez de Morris Davis, liderando um grupo de americanos, tentar voltar a tomar o poder na região, mas foram retirados novamente pelas tropas de Tonga.

 

 

Seborga

 

Pesquisando até os Arquivos do Vaticano, o italiano Giorgio Carbone descobriu que não havia nenhum documento provando a integração do Principado de Seborga à Itália. Por isso, ao consultar os moradores locais, ele decretou que o local de 14 km2 era uma nação independente. Em 1963, ele foi eleito príncipe e começou a ser chamado de Giorgio I. Os italianos trataram aquilo apenas como algo folclórico. Só Burkina Faso reconheceu Seborga como país. Giorgio morreu em 2009 e foi sucedido no trono pelo empresário Marcello Menegatto, ou Marcello I. Em 2019, ele foi sucedido pela mulher, Nina Menegatto, ou Princesa Nina. Pelo último censo, o lugar tem 297 habitantes.

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