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Como as alheiras salvaram judeus em Portugal?

22 de abril de 2021

Península Ibérica, 1492. Portugal já tinha livrado seu território da dominação muçulmana. Agora era a vez da Espanha fazer o mesmo. Por isso, depois de séculos de dominação islâmica, os espanhóis imaginavam que o melhor seria afastar qualquer outra influência não cristã. Pior para os judeus. Começaram a interrogá-los, mesmo os convertidos. Era a Inquisição. Quem não fosse radicalmente cristão poderia acabar queimado vivo. Muitos judeus fugiram para Portugal. Só que a vida não era tão mais fácil em terras lusitanas. Judeus eram informalmente perseguidos: se não pelo Estado, pelo povão.

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Você conhece as palavras “judiaria” e ‘judiação”? Pois “judiaria” era a invasão do bairro judeu. O ataque cruel contra os que viviam lá era a “judiação”. Então, ser judeu não era igualmente fácil em Portugal. Quando a Inquisição e suas fogueiras chegaram, a pergunta foi: como enganar os furiosos cristãos? Um dos meios mais fáceis de descobrir judeus era saber quem não comia carne de porco. Bastava observar quem, por exemplo, não consumia linguiça.

É aí que entra a nossa heroína: a alheira. Inicialmente em Mirandella, na região de Trás-Os-Montes. Os europeus precisavam conservar carnes para aguentar períodos de inverno e tempos de escassez de alimentos. Uma das maneiras de fazer isso era preparar as carnes temperadas como embutidos – ou enchidos, como se diz em Portugal. Toda a Europa faz isso, principalmente com carne de porco temperada, na forma de salsichas, linguiças, mortadelas, salames. A carne de porco é a preferida por estar mais à mão. Bovinos e carnes de caça são para nobres. Aves estão dentro de casa, mesmo no inverno. Então o porco é o ideal. Aí é que vem o pulo do gato: ninguém iria examinar o interior de uma linguiça para saber que carne havia lá dentro. Só pode ser carne de porco, certo? Não exatamente. Os judeus começaram a fazer enchidos com um combinado de carne de frango, pão, colorau (para dar uma cor), pimentas e muito alho. Isso dava um excelente sabor, fosse fresca ou defumada. Assim nasceu a alheira, que salvou inúmeras vidas e, hoje, é considerada uma das sete maravilhas da culinária portuguesa.

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