Por que o Uruguai tem quatro estrelas em sua camisa se é apenas bicampeão do mundo? Para o jornalista franco-uruguaio Pierre Arrighi o estalo veio em 2009, quando Uruguai e França jogaram uma partida comemorativa chamada de “O Jogo das Cinco Estrelas”, alusão ao título mundial conquistado pelos franceses em 1998, e às duas medalhas de ouro olímpicas (1924 e 1928) e às duas Copas do Mundo (1930 e 1950) dos uruguaios. A FIFA, no entanto, só reconhece os dois últimos títulos. Lançado no sábado passado, em Montevidéu, ome livro “1924 – Primeira Copa do Mundo de Futebol da FIFA”, de Arrighi, quer corrigir o que ele chama de erro histórico. “O mundo sabe que o Uruguai é o primeiro campeão mundial.  Mas não foi em 1930, e sim em 1924”.

livro “1924 – Primeira Copa do Mundo de Futebol da FIFAFilho de pai francês e mãe uruguaia, Pierre Arrighi, 60 anos, viveu em Montevidéu até os 22, quando escreveu suas primeiras reportagens jornalísticas para o diário “El Dia”. Em 1976, foi com a família morar em Paris. O estudo do futebol permeou a vida de Pierre em ambos continentes, até que se deparou com uma dúvida: quantas vezes o Uruguai havia sido campeão do mundo? Aproveitando a vida parisiense, trancou-se na biblioteca da Federação Francesa de Futebol por dois anos, onde encontrou documentos que, a seu ver, provam que as Olimpíadas de 1924, sediadas no distrito francês de Colombes, valeram como Copa do Mundo. “A Federação Francesa e a FIFA, ambas presididas por Jules Rimet, organizaram o ‘Torneio Mundial de Futebol’ em 1924, como o diário oficial das entidades anunciou”, afirma o jornalista, que escreveu recentemente um artigo mostrando que Jules Rimet tentou boicotar a Copa de 1930. “Até Pierre de Coubertin, presidente do COI, disse que foi um grande campeonato mundial”.

uruguai medalha de ouro no futebol nos jogos olímpicos de 1924A discussão chegou até o presidente da FIFA Joseph Blatter, que, em 31 de março de 2000, afirmou que o Uruguai não era tetracampeão mundial. “Os torneio de 1924 e 1928 não foram Copas do Mundo”, decretou. “Esses nem foram os primeiros torneios olímpicos em que se jogou oficialmente o futebol”. O contra-ataque de Blatter, sobre os torneios anteriores de futebol em Olimpíadas, que começaram em 1900, foi repudiado pelo autor: “O torneio de 1920 não foi organizado pela FIFA nem foi mundial. Somente jogaram países europeus e o Egito, que ainda era uma colônia britânica.” Em 1921, o Congresso Olímpico definiu as diretrizes dos Jogos de 1924. Na lista de federações organizadoras, estava a FIFA, que controlaria o torneio de futebol, o que o tornaria um campeonato oficial da entidade. Pierre necessitava comprovar a participação da FIFA no torneio, e isso está escrito no “Guia Oficial da VIII Olimpíada”. “Está escrito que os poderes desportivos seriam a FIFA e a Federação Francesa de Futebol”, festeja.

No torneio de futebol das Olimpíadas de 1924, cinco continentes estiveram representados por 22 seleções, números que seriam batidos somente em 1954, na Copa do Mundo disputada na Suíça e vencida pela Alemanha. A pluralidade continental é um dos fatores que embasam uma das cinco teses que Pierre Arrighi usa para comprovar que 1924 foi realmente uma Copa do Mundo. As outras são: o torneio ser dirigido por poderes desportivos do futebol que exercem livremente suas prerrogativas; esses poderes outorgam uma classificação na qual se especifique o caráter mundial da competição; o certamente ser amplamente divulgado pela imprensa mundial; o campeonato ser aberto a todas as categorias de futebolistas sem exclusões. Em 1924, apesar de ser um torneio olímpico, as seleções da França, Hungria, Suíça, Itália e Espanha usaram somente profissionais. Já o campeão Uruguai, que viria a profissionalizar seu futebol em 1932, contou apenas com amadores, o que, segundo o autor, suscitou maior “raiva” ao pequeno país. “A situação piorou depois que o Uruguai eliminou a anfitriã Holanda nas Olimpíadas de 1928”, afirma Pierre.

Para o povo uruguaio, o sentimento é que o país é tetracampeão do mundo. Inclusive quando veste a camisa da seleção nacional. “O regulamento da FIFA diz que somente podem usar estrelas os países que já tiverem sido campeões do mundo”, diz Pierre. “Por email, eles me confirmaram autorização das quatro estrelas para a AUF [Associação Uruguaia de Futebol]”. O autor afirma que a FIFA e a federação francesa tentaram ajudá-lo na pesquisa até o momento em que descobriram qual era a real motivação da pesquisa. “A partir daí, fui proibido de frequentar a biblioteca da Federação Francesa até 2016″, conta. “Mas precisava provar que meu país é tetracampeão do mundo.”