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Zeloni, Durval e Ribeiro Filho: três pioneiros da TV

29 de novembro de 2021
Chegou a vez de Magalhães Júnior, especialista em televisão, homenagear três grandes nomes masculinos, todos eles muito importantes, mas que hoje pouco são lembrados: Durval de Souza, Ribeiro Filho e Otello Zeloni.

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Durval de Souza

Durval de Souza nasceu em Matão (SP) em 1923 e faleceu em 1982. Ele largou a Faculdade de Direito para começar a cursar a Escola de Arte Dramática. Em 1953, ele recebeu um convite para ser chefe de estúdio na recém inaugurada TV Record, mas sempre foi considerado um “faz-tudo”. Durval possuía um talento nato para fazer humor e comédia . Tanto que, em 1955, ele recebeu o Troféu Roquette Pinto como revelação masculina da televisão por sua participação humorística no programa “Big Show Peixe”. Esse foi o primeiro de uma série de troféus Roquette Pinto – e outros do gênero – recebidos por Durval. Ele ganhou como melhor comediante, melhor ator, melhor produtor. O último, em 1963, foi como melhor produtor infantil.

Sua dedicação à criança ficou evidente em um dos programas infantis mais icônicos da TV brasileira nos anos 1950/60: “Grande Gincana Kibon”. Ele foi produtor, apresentador e diretor do programa exibido entre 1956 e 1967. “Grande Gincana Kibon” apresentava crianças nos mais variados segmentos artísticos, principalmente música e dança. Em 1972, Durval criou o programa “Setinho” – numa alusão ao canal 7, da TV Record –, que caiu também no gosto da criançada. Outra criação do Durval foi o “Tribunal Infantil”, em 1962. Os participantes mirins, usando toga, julgavam e apresentavam seu veredito de um fato apresentado pela direção do programa. A ideia era apresentar elementos da Justiça à formação das crianças.

Durval de Souza fazia parecer fácil a arte de fazer humor fosse numa série do tipo “My Darling”, de 1957, que ele fez ao lado de Arlete Montenegro, ou ainda criando personagens, como o excêntrico Mister Pitti em “Teatro de Variedades”, também de 1957. Foi dele também a criação do sensacional “Durvalino, o Garoto-Propaganda”, personagem que satirizava as garotas-propaganda da TV, apresentando os mais inusitados produtos, sempre de forma muito bem humorada. O sucesso desse personagem fez com que muitas biografias atribuam a ele o papel de primeiro garoto-propaganda da televisão brasileira, sem se dar conta que a intenção era humorística, e não publicitária.

Durval foi também o melhor imitador caricato do ditador nazista Hitler que a TV brasileira já teve. Ele participou como Hitler de uma série humorística “Quem Bate” , paródia da série de guerra “Combate”, em 1965. Ele se preocupava não só com a caracterização, mas também com a interpretação a ponto de aprender alemão para poder desenvolver melhor o personagem.

Ribeiro Filho

João Martins Ribeiro Filho nasceu em São Paulo em 1917 e, com apenas 19 anos, estreou como locutor na Rádio São Paulo. Com uma voz invejável e dono de um vasto repertório cultural, Ribeiro Filho passou por importantes emissoras de rádio de São Paulo até se fixar na Rádio Tupi nos anos 1940. Rapidamente passou a assinar seus próprios programas, como “Diversões Castelo”. Em 1950, poucos dias depois da inauguração da TV Tupi de São Paulo, Ribeiro Filho já começava a emplacar vários programas – em geral, peças teatrais de uma hora de duração – tais como “O destino tem duas pernas” , “Nossa roupa, nossa alma” e “Um sonho morre no inverno”. Sua tendência maior era na criação de programas que tivessem comédia. Foi assim em “A sogra que Deus me deu”,  com Maria Vidal, em 1955, e “Há um broto em meu futuro”, em 1960, em que também atuou como ator. Um de seus maiores sucessos na época foi “Filho de Peixe”, programa de meia hora de duração, que tinha o ator Flávio Pedroso como um dos principais nomes do elenco. Era um programa muito divertido, capaz de juntar Dom Quixote e Sherlock Holmes numa mesma aventura, usando os maiores nomes do elenco da TV Tupi.

Em 1954, Ribeiro Filho criou, roteirizou e atuou no programa humorístico “Pandemônio”, o que mostrava seu lado eclético. Foi dele a adaptação para o Brasil do programa “O céu é o limite”, em 1956. Criou programas de variedades, como “Grande Show Pirani-Vigorelli” em 1956.  Também são dele os programas musicais: “Imagens Musicais Coty”  e “Rapsódia”, ambos de 1957. Programa que mesclava entrevista música e humor: “Encontro Com Amigos”, de 1954. Série de comédia romântica: “Quem conta um conto”, de 1958, e “Tribunal do Coração”, de 1957, com a participação de Vida Alves. Programa sobre o universo feminino: “Mulher – essa desconhecida”, em 1964.

Seus últimos trabalhos em TV foram como apresentador do telejornal “Ultra Notícias” entre 1966 e 1968. Ribeiro Filho foi também dublador. Ele emprestou a sua voz ao protagonista da série “Papai Sabe Tudo”.  Ele fazia o “papai” Jim Anderson, interpretado pelo ator Robert Young.

Otello Zeloni

Nascido em 26 de novembro de 1921, Otello Zeloni costumava dizer que era romano, e não italiano. Por causa de sua paixão por aviões, ele tirou brevê de piloto na Itália e acabou convocado pela aviação militar quando estourou a Segunda Guerra Mundial, em 1939. Ele teve três acidentes aéreos, mas sempre escapou ileso. Para a sorte dele, da guerra e também nossa, Zeloni se livrou de ir para o front pilotando um bombardeiro justamente por causa do Armistício.

Com o final da guerra, não se sabe como, Zeloni conseguiu cópias de filmes italianos. O que ele fez? Colocou tudo numa mala, pegou um avião e viajou para negociá-las na Argentina. Ali ele conheceu os integrantes da Companhia Italiana de Revista, que tinha excursão marcada para o Brasil. Ele fez um teste e foi aprovado como ator. Depois da excursão, a trupe voltou para a Itália. Zeloni desistiu da Argentina e resolveu ficar no Brasil. Foi contratado para atuar no Teatro de Revista brasileiro. Até que em 1957 ele foi convidado a estrelar uma série na TV Tupi de São Paulo. A série, de Walter George Durst, tinha como protagonista o Padre Dom Camilo. E assim Zeloni experimenta seu primeiro sucesso na TV com “O pequeno mundo de Dom Camilo”, interpretando o padre Dom Camilo. O ator e produtor Heitor de Andrade, que fazia o personagem Pepone, era o prefeito comunista da cidade e vivia às turras com o religioso.

No início dos anos 1960, ainda na TV Tupi, Zeloni dirigiu, produziu e estrelou o programa “São Paulo domingo à noite”, que tinha a participação de duas vedetes, Zélia Hoffman e Tereza Costello; a travesti Ivaná; os cantores Agnaldo Rayol, Inezita Barroso e Nelson Gonçalves, e comediantes, como Walter D’Avila e Costinha. Nesse programa, Zeloni criou o personagem “Prontidão”, que era como se chamava o soldado de serviço numa delegacia. Obviamente o Prontidão de Zeloni era super atrapalhado e tinha um bordão que caiu na boca do povo na época. Toda vez que o delegado chamava “Prontidão!”, lá vinha Zeloni. correndo e dizendo com sua voz bem rouca:  “O senhor me chamou?”. O bordão virou até marchinha de Carnaval.

Em 1964, o ator e comediante vai para a TV Record para estrelar “Zeloni em uma peça só”. Uma comédia teatral diferente a cada semana. No ano seguinte, ao lado de Durval de Souza, Zeloni participa da paródia “Quem bate” e também passa a estrelar um humorístico semanal que leva no título simplesmente o seu sobrenome.

Seu maior sucesso na TV viria na sequência: “Família Trapo”, que estreou em 1967, era exibido aos sábados, às 8 da noite, com Zeloni, Ronald Golias e Jô Soares, formando o trio de humor. Zeloni fazia Pepino Trapo, um italiano, casado, que tinha uma filha, uma casa com mordomo (Gordon) e também a figura do cunhado pilantra e aproveitador (Bronco). Zeloni gostava de improvisar bastante. Em geral, ele não decorava o texto, só sabia o contexto da cena. Foi num desses improvisos que ele começou a citar os joelhos da cantora Nara Leão, estrela da Bossa Nova, que usava minissaia, e isso se tornou bordão – até em outros programas. Ainda na TV Record, ele emplaca o humorístico-musical “Vamos S’imbora”, com Wilson Simonal.

De volta à TV Tupi, em 1971, Zeloni reedita o sucesso de Dom Camilo com a série “Dom Camilo e Os Cabeludos”, agora com Elias Gleiser no papel de Pepone. No ano seguinte, ele resolve mostrar seus dotes culinários, que eram vastos, no programa “Zeloni, Forno e Fogão”.  Em 1973, Zeloni se torna protagonista da novela “O Conde Zebra”, um verdureiro italiano, chamado Vitório Testada, que ganha na Loteria Esportiva. A divertida novela foi escrita por Sérgio Jockyman e tinha no elenco Ruthinéia de Moraes, Dante Ruy, Older Cazarré, Yara Lins e Renato Consorte. Infelizmente, “O Conde Zebra” seria o último trabalho de Zeloni, que viria a falecer no meio das gravações, interrompendo a exibição da novela. A emissora não enxergou condições de substituir uma interpretação tão particular quanto a de Zeloni.

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