Eu arriscaria dizer que o professor de oratória americano Dale Carnegie (1888-1955) foi o primeiro influenciador da história. Em 1934, Leon Shimkin, editor da Simon & Schuster, assistiu a uma de suas aulas e insistiu para que ele escrevesse um livro sobre relações humanas. Dois anos depois, Carnegie lançou “Como fazer amigos e influenciar pessoas”, um marco da literatura de autoajuda (ou autoaperfeiçoamento, como ele prefere chamar). A tiragem inicial foi de 5 mil exemplares. Três meses depois, a editora já contabilizava 250 mil livros vendidos. “Como fazer amigos e influenciar pessoas” já ultrapassou a marca de 16 milhões de cópias vendidas ao redor do mundo.

Ganhei há algumas semanas uma nova edição, de capa dura, atualizada pela filha de Carnegie, Donna, e pelo escritor Andrew Postman. A princípio, não dei muita bola para o best seller. Mas a curiosidade acabou vencendo e, depois de alguns dias na mesa de cabeceira, dei o braço a torcer – e me surpreendi! De cara, entendi o motivo de o livro fazer sucesso há tanto tempo. Apesar de não prometer fórmulas mágicas para enriquecer ou conseguir o emprego dos sonhos, várias passagens continuam atualíssimas.

É autoajuda em estado bruto, repito, mas o livro de Dale Carnegie demonstra que alguns de nossos comportamentos não mudaram nada nesses quase noventa anos. Em alguns casos, voltamos algumas casinhas. Em plena “Era das Conexões Virtuais”, fazer amigos talvez não seja mais uma preocupação. E já existem influenciadores suficientes ensinando “segredos infalíveis” para quem quiser ganhar seguidores. Mas Carnegie fala de relações humanas de verdade – e, portanto, muitas de suas dicas permitiriam que a obra se chamasse “Como respeitar as pessoas e dar bom exemplo a todos”. Só não sei se venderia tanto.

De cara, no primeiro capítulo, li: “Qualquer tolo pode criticar, condenar e reclamar – e a maioria dos tolos assim o faz. Mas é preciso ter caráter e autocontrole para compreender e perdoar”. Seria o visionário influenciador falando dos haters antes também de eles existirem? Mais adiante, Dale Carnegie escreveu: “Certa vez, [o presidente americano Abraham Lincoln] começou uma carta dizendo: ‘Todos gostam de um elogio’. [O filósofo e psicólogo americano] William James afirmou: ‘O mais profundo princípio da natureza humana é a ânsia de obter reconhecimento'”. É por isso que ficamos esperando as curtidas em cada texto que postamos?