REI CHARLES

As regras para a sucessão do trono britânico foram estipuladas em 1701, com o Ato de Estabelecimento. Quando o trono precisa de um sucessor, candidatos legítimos à posse da coroa, classificados em uma lista por grau de parentesco com o atual monarca, sobem uma posição. Só há dois motivos que podem desqualificar um candidato: ele ser católico (ou casado com um católico) ou ser fruto de um caso extraconjugal. Repare que a condição não é que o monarca seja protestante – a religião oficial do país. Ele só não pode ser católico.

A repulsa por monarcas católicos tem raízes históricas. No século 11, havia uma intensa ligação entre Inglaterra e Roma. Essa ligação atingiu seu pico no reinado de Eduardo, o Confessor (1042 – 1066), cuja lealdade a Roma o fez popular entre o papado. No século 13, entretanto, sob o poder do impopular Rei João Sem Terra (1199 – 1266), a relação de Roma com os britânicos esfriou. Depois de derrotado pelos franceses, Rei João aceitou a dominação do papado sobre a Inglaterra. Roma aplicou pesadas taxas aos ingleses, provocando o descontentamento britânico com o papado e o questionamento quanto aos poderes do papa sobre o cristianismo.

Os atritos entre Inglaterra e Roma duraram até o século 16, quando o rei Henrique VIII rompeu com o papado para conseguir o divórcio de Catarina de Aragão e se casar com Ana Bolena. A fundação da Igreja da Inglaterra, independente do papado, facilitou o desenrolar da Reforma Protestante. O movimento, entretanto, sofreu um impacto com a morte de Eduardo VI (filho de Henrique VIII) seis anos depois de assumir a coroa. Sua sucessora direta, Mary, filha católica de Catarina de Aragão e Henrique VIII, subiu ao trono em 1553, iniciando uma cruel perseguição aos protestantes, o que lhe rendeu o apelido de “Bloody Mary” (Maria, a Sanguinária).

O reinado de Mary chegou ao fim com sua morte, em 1558. Quem assumiu foi a irmã mais nova, a protestante Elizabeth I, que ficou 40 anos no poder, consolidando a Inglaterra como uma nação protestante. Ela, entretanto, pecou ao não deixar herdeiros. Quem ficou no lugar dela foi James VI da Escócia, um parente distante que acabou virando Rei James I da Inglaterra.

Apesar de ter batido de frente com o povo por sua crença nos poderes divinos da realeza, James deu aos ingleses um presente: autorizou a tradução da Bíblia para a língua local, acabando com o uso dos textos enviados diretamente de Roma. Em 1625, com a morte de James, seu filho Charles assumiu o trono, mas foi deposto 24 anos depois, acusado de traição. A Inglaterra experimentou então uma democracia sob o governo de Oliver Cromwell.

No entanto, por insistência do povo, em 1660 um novo rei (Charles II) subiu ao poder. Seu reinado foi trágico para os dissidentes ingleses (cristãos que se opuseram ao estado e formaram suas próprias Igrejas), como os batistas e sabbatarianos. Com a morte dele, o irmão caçula James II foi coroado e, para surpresa geral, logo se converteu ao catolicismo. O povo não tolerou a mudança religiosa e iniciou a chamada Revolução Gloriosa, que o forçou a abdicar.

Quem assumiu foi Mary, filha de James II, ao lado do marido Príncipe William de Orange. A Inglaterra, determinada a nunca mais se submeter aos poderes papais, incluiu, em 1869, na Declaração dos Direitos Britânicos, a proibição de católicos em qualquer cargo oficial do reino. Em 1701, o Ato do Estabelecimento foi criado para enfatizar que nunca mais o país coroaria um monarca católico. Está em vigor até hoje.

 

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