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Por que as aeromoças ainda mexem tanto com o imaginário masculino

10 de novembro de 2014

Em 2008, com a desculpa de arrecadar fundos para instituições filantrópicas, a companhia aérea irlandesa Ryanair produziu um calendário sensual, estrelado por aeromoças da empresa vestidas de biquíni. O sucesso das vendas veio acompanhado de críticas sobre a vulgarização da imagem da mulher. No início do mês de outubro deste ano, a Ryanair anunciou o cancelamento da edição do calendário 2015, por causa de um processo da corte espanhola, que pedia o fim da campanha, que arrecadou 100 mil euros (308 mil reais).

Inspiradas na companhia aérea irlandesa, outras empresas passaram a fazer trabalhos semelhantes com suas aeromoças. Desde 2009, a Air Baltic, da Letônia, apresenta aos seus clientes um calendário com suas comissárias de bordo. A companhia tailandesa Nok Air lançou no ano passado seu primeiro calendário sensual. O governo do país logo se manifestou contra a ação, reprovando o fato de “empresas ainda utilizarem o corpo da mulher como ferramenta de marketing”.

Em 2012, a companhia vietnamita VietJetAir apelou ainda mais: um desfile de lingerie dentro de um voo inaugural. O avião decolou pela primeira vez com destino à cidade litorânea de Nha Trang. A cidade promovia um concurso de beleza, e algumas garotas que participavam da competição fizeram parte desse desfile nas alturas. Os passageiros foram autorizados a filmar a atividade. Evidentemente, os vídeos foram parar no YouTube e a empresa foi multada pelas autoridades locais.

No Brasil, a associação entre comissárias de voo e sensualidade também já foi bastante explorada. A ex-aeromoça Jaqueline Jatai, 27 anos, foi capa da revista Sexy do mês de outubro. Há cerca de um ano, a paulistana foi demitida da TAM. A empresa alegou que a ex-comissária de bordo usava roupas justas ao longo dos voos.  “Sim, recebia elogios”, comenta Jaqueline, que trabalhou três anos na companhia. “Eu agradecia a todos gentilmente, não deixando passar disso. Depois que sai da TAM, tentei outras empresas, mas nenhuma me deixou participar do processo seletivo”. A revista masculina aproveitou o imbroglio e utilizou a aviação como o tema do ensaio sensual. “Além de a história dela ser interessante, a figura da aeromoça sempre exerceu um fascínio no imaginário masculino”, diz Fel Mendes, 30 anos, redator-chefe da Sexy.

Um ano depois de ser demitida da TAM, Jaqueline é capa da revista masculina Sexy

Jaqueline não foi a primeira ex-aeromoça a posar nua no Brasil. Em setembro de 2006, a revista Playboy estampou em sua capa três de uma vez: Juliana Neves, Sabrina Knop e Patrícia Kreusburg. A chamada da capa: Os aviões da Varig. “O ensaio das três saiu em várias edições de Playboy ao redor do mundo”, recorda-se Jardel Sebba, 39 anos, editor da Playboy.

Fundada em 1927, a empresa gaúcha Varig demitiu 5 500 funcionários em julho de 2006, o que representou um corte de 58% do pessoal. Juliana, Sabrina e Patrícia estavam nessa leva. “Sou de uma geração em que viajar de avião não era muito comum”, continua Jardel. “As pessoas se arrumavam como se estivessem indo para uma festa. Chegando lá dentro, o passageiro se depara com uma mulher linda que vai conviver com ele por várias horas. É uma fantasia permanente”.

Juliana Neves (E), Sabrina Knop e Patrícia Kreusburg posaram nua em setembro de 2006

Quando é que as aeromoças começam a ser vistas como símbolos sexuais? O Blog do Curioso fez esta pergunta à Nádia Brito, 66 anos, coordenadora do curso de comissária de bordo do Aeroclube de São Paulo – Escola de Aviação Civil,  que atuou durante 17 anos como aeromoça. “Qualquer função que fugisse à regra, que era ser dona de casa, exercia um fascínio diferente. Eram vistas pelos homens como mulheres mais independentes”, explica Nádia. “Não só aeromoças, mas também secretárias e enfermeiras funcionavam da mesma forma”. Mas o fato de as companhias aéreas darem preferência a mulheres bonitas, altas e elegantes não ajudou a aumentar essa fantasia? “Não precisa ser bonita, mas simpática. Deve gostar de trabalhar com pessoas”, completa Nádia, que dá aulas desde  1971. “O fato de ser sempre magra é uma exigência da profissão. Uma pessoa mais gordinha teria dificuldade para passar no corredor.”

Carlos Prado, 44 anos, que foi comissário de voos internacionais da VASP durante 10 anos, coordena hoje os cursos da Escola Master de Aviação. Ele acredita que essa associação com a sexualidade nasceu junto com a profissão de aeromoça. “Em 1930, as empresas de aviação começaram a colocar enfermeiras para acompanhar a tripulação”, explica. “Como na época apenas homens viajavam nas aeronaves, as mulheres passaram a ser chamadas de aeromoças”. A ideia foi sugerida pela enfermeira americana Ellen Church, que entrou para a história como a primeira comissária da história. Formada em Enfermagem, Ellen sonhava em ser pilota de avião. No entanto, como apenas homens pilotavam, ela propôs incluir enfermeiras na tripulação. Foi o jeito que encontrou para voar.

A enfermeira americana Ellen Church entrou para a história como a primeira aeromoça do mundo

“Logo as empresas perceberam que aquelas meninas chamavam a atenção dos passageiros”, relata Carlos. “Então, começaram a investir em uniformes e a criar padrões de maquiagem”. Já naquela época, as mulheres dos pilotos chegaram a fazer um protesto contra a presença das aeromoças nos aviões.

Carlos Prado conta que a média de idade das alunas que procuram a escola é de 20 anos. “Mas tenho também alunas que são casadas e já são mães”. Durante as aulas, elas recebem dicas de como driblar cantadas durante o voo. “A escola tem o objetivo de prepará-las para a prova da ANAC (Agência Nacional de Aviação Civil), mas acabamos abordando esses temas aqui também”, explica. “Não é só a aparência que fará ela ser contratada por uma empresa aérea. Atrás daquela imagem simpática está uma profissional que ralou muito para chegar lá”.

Para entrar num curso de comissário de bordo, os alunos devem ser maiores de 18 anos, ter o ensino médio completo e passar por uma bateria de exames exigidos pela ANAC. O curso apresenta 12 matérias e tem duração de cinco meses. Depois da conclusão das aulas, acontece a prova. Aprovado e contratado por alguma companhia aérea, o comissário ainda passa por 30 dias de treinamento antes de embarcar no seu primeiro voo.

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