A comoção foi geral hoje na internet. As redes sociais comemoravam a volta de uma das mais tradicionais lojas de departamento da cidade. Só que a alegria durou pouco. Apesar de o site dizer que possui “tradição no mercado” e usar o slogan “Venha Correndo Aproveitar”, que remete à saudosa campanha do Mappin, a página Ofertas Mappin é apenas uma esperteza de um grupo de e-commerce não tão bem afamado assim. O domínio “ofertasmappin.com.br” foi registrado em 27 de outubro de 2014 pela Shopping Best Trends Comércio Eletrônico – Eireli – ME. A empresa possui outros onze domínios cadastrados como sites de compras online, sendo que somente quatro estão abertos ao público, incluindo a nova Ofertas Mappin. No site “Reclame Aqui”, onde consumidores registram queixas sobre lojas, há 1789 reclamações – nenhuma delas respondida – sobre as páginas Di Compra, Digital Nex e TrevoEletro, além da Makro Eletro, que teve o domínio vencido – todas administradas pela Shopping Best Trends.

A sala número 2 do prédio localizado na Avenida João Carlos da Silva Borges, no bairro Vila Cruzeiro, em São Paulo, abrigava a sede da Shopping Best Trends. Hoje, no local, funciona o escritório de advocacia Perassolli. Funcionários afirmam desconhecer a empresa e seu atual endereço. Para efetuar uma compra no site Ofertas Mappin, é necessário fazer a transferência bancária para a conta registrada no CNPJ da empresa T.K.S. Comércio e Serviços de Video Games Eireli – ME, com sede no bairro Vila Lageado, em São Paulo. As ligações para os dois locais terminaram na gravação “este telefone está impossibilitado de receber este tipo de chamada”.

Quem não entendeu nada ao receber uma mala direta do site Ofertas Mappin na tarde de ontem foi Nader Fares, diretor comercial da Marabraz, empresa que detém os direitos sobre a marca Mappin. “Foi um susto muito grande para todos nós”, afirma.  “Se uma empresa tem coragem de abrir uma loja usando tudo o que nos pertence, não sei o que mais poderá fazer. Tememos que danifique o bom nome da marca”. Em dezembro de 2009, a rede de lojas Marabraz comprou a marca Mappin, incluindo nome e logomarca, por 5 milhões de reais. A notícia que havia um site usando a marca da extinta loja de departamento caiu como uma bomba dentro da empresa comandada pela família Fares. De acordo com o advogado da Marabraz, Alberto Camelier, o grupo planeja entrar com uma ação judicial, ainda esta semana, para a retirada imediata do site do ar. “De 2009 para cá, já passamos pelo mesmo problema de uso indevido da marca Mappin outras vinte vezes”, afirma Camelier. “Conseguimos ganhar 90% dos casos só com liminares. Certamente, essa situação é a pior que já enfrentamos, porque fazem uso da marca para vendas online.” A boa notícia é que a Marabraz pretende voltar com as lojas físicas do Mappin em 2015.  “Como é uma marca forte, estamos estudando diferentes estratégias para o lançamento”, explica Nader Fares. Se os planos se concretizarem, o Mappin voltará a atuar em São Paulo depois de 16 anos.

Criada em 1774, na cidade inglesa de Sheffield, a loja de departamento Mappin só chegou ao Brasil em novembro de 1913, na Rua 15 de Novembro, no centro de São Paulo. Nessa época, o local era frequentado pela elite paulistana, que se deliciava com as joias e as porcelanas inglesas, expostas em um novo conceito de vitrines luxuosas.  Em 1919, o Mappin mudou-se para a Praça do Patriarca, onde ficou até 1939, com a mudança para a sede mais famosa, na Praça Ramos de Azevedo. Dividida por departamentos, que vendiam produtos como roupas, móveis, eletrodomésticos e brinquedos, o Mappin tornou-se famosa por seu jingle “Mappin/ Venha correndo, Mappin/ Chegou a hora Mappin/ É a liquidação”. A loja possuiu 8 filiais no Brasil. A falência veio em 1999, três anos depois de Ricardo Mansur, da Mesbla, ter assumido o controle.