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O curioso turismo de guerra do Vietnã

29 de julho de 2013

O Vietnã havia sido colônia francesa e no final da Guerra da Indochina (1946-1954) foi dividido em dois países. O Vietnã do Norte era comandado por Ho Chi Minh, que tinha orientação pró União Soviética. O Vietnã do Sul, uma ditadura militar, passou a ser aliado dos Estados Unidos. Em 1954, os Estados Unidos declararam guerra à porção norte do Vietnã, para conter um suposto avanço do comunismo. O conflito só acabou vinte anos depois, com a derrota dos norte-americanos. Nesse intervalo, morreram 2 milhões de civis e 1 milhão de soldados vietnamitas. A guerra também deixou 2 milhões de inválidos e 300 mil desaparecidos no Vietnã. Do lado norte-americano, foram 57.939 baixas, 300 mil feridos e 1.651 desaparecidos.
Quase quatro décadas depois do fim do conflito, o Vietnã ainda convive diariamente com a guerra. A diferença é que isso passou a ser atração turística. Quem vai ao país asiático tem a chance de tirar fotos de tanques e aviões norte-americanos originais da guerra; passear pelos antigos campos de batalha (ainda munidos de bombas subterrâneas!); conhecer as armadilhas fabricadas pelos vietcongues; visitar os túneis subterrâneos usados como esconderijos e, de quebra, alugar armas de guerra originais para treinar alguns tiros.

Museu de armadilhas feitas pelos vietcongues

O Blog do Curioso encontrou um brasileiro que participou do turismo de guerra no Vietnã e Camboja. Daniel Lucas, hoje com 36 anos, passou quatro meses e meio percorrendo o sudeste asiático no ano de 2000. “Foi a maneira que a população arrumou de conseguir lucrar com a guerra”, conta Daniel. “Eles não tinham o que fazer com todo aquele artefato deixado pelos americanos”. O custo para transportar todos os tanques, aviões e armas de volta para o ocidente eram muito mais caros do que o descarte do material. Os vietnamitas superaram o rancor em favor do desenvolvimento da indústria do turismo local: está tudo exposto em praças públicas e nos campos de batalha originais para quem quiser ver.


Nas visitas aos campos de batalha originais, os turistas são convidados a testar as armas de guerra dos anos 60 atirando em animais. Quem aluga uma espingarda AK-47 (15 dólares) ganha uma galinha; os que escolhem o fuzil M-16 (50 dólares) levam um porco e os corajosos que se dispõem a atirar um míssil com uma B-40 (200 dólares) são presenteados com uma vaca. O curioso é que, se o atirador não consegue matar sua presa, ele tem que se virar para se livrar dela. “Ninguém acerta!”, conta Daniel. “A maioria dos turistas acaba tendo que pagar para devolver o animal à fazenda”.

Na opinião do brasileiro, mais radical do que a experiência com as armas de fogo é o passeio ao longo dos túneis subterrâneos secretos construídos pelos vietcongues, usados como verdadeiros quartéis por cerca de 20 mil combatentes e suas famílias. Originalmente, os chamados Cu Chi Tunnels tinham cerca de 250 quilômetros de extensão. A porção que restou foi batizada de “vila heroica” e é aberta à visitação turística. O passeio é uma prova de fogo para claustrofóbicos. “Muita gente que estava no meu grupo não conseguiu entrar no túnel”, lembra Daniel. Um tour de duração de 12 horas custa, em média, 30 dólares. Os turistas são apresentados a uma verdadeira cidade subterrânea. Além de quartos, salas e banheiros, dentro dos túneis funcionavam hospitais, salas cirúrgicas, depósitos de armamentos e até teatros. “Foi assim que eles ganharam a guerra. É fascinante”.

Daniel Lucas entrando no túnel

Cômodo subterrâneo

Não é só o turismo local que é americanizado. No Vietnã, o comércio é feito preferencialmente em dólar, em detrimento do desvalorizado dongue (1 dólar corresponde a 21 dongues). “Além disso, fala-se inglês até em comunidades pobres”, constata Daniel. E não pense que os norte-americanos se acanham em visitar o país que eles próprios devastaram. “Cerca de 90% dos turistas que eu encontrei pelo caminho eram norte-americanos”. O brasileiro não notou diferença no tratamento da população local. “Só teve um restaurante em que tentaram me cobrar mais por achar que eu tinha cara de americano”. O turismo de guerra, apesar de render bons frutos ao país, acaba ofuscando as atrações naturais do Vietnã. O local tem uma das paisagens mais paradisíacas do mundo.
(Fotos: Daniel Lucas)

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4 Comentários

4 Comentários

  1. j roberto f rocha

    Q coisa morbida.

    Responder
  2. j roberto f rocha

    Q coisa morbida.

    Responder
  3. Luis Fernandes

    Realizei um trabalho para minha turma do 4º ano de Turismo e Meio Ambiente da Universidade Estadual do Paraná. Utilizei algumas das informações citadas nesse blog. Achei muito bacana o roteiro. Um dia desses, quiçá, vou ao Vietnã kk…
    Abraços
    Parabéns pela matéria.

    Responder
  4. Luis Fernandes

    Realizei um trabalho para minha turma do 4º ano de Turismo e Meio Ambiente da Universidade Estadual do Paraná. Utilizei algumas das informações citadas nesse blog. Achei muito bacana o roteiro. Um dia desses, quiçá, vou ao Vietnã kk…
    Abraços
    Parabéns pela matéria.

    Responder

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