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Como o vestuário brasileiro poderia ser padronizado?

15 de julho de 2020

“Estou procurando uma calça jeans feminina, tamanho 42, corte reto, o modelo mais clássico possível”. As vestimentas são parecidas: possuem o mesmo número de botões e bolsos – até os tons de azul não são tão distintos. Por dentro, há costuras de diferentes qualidades, com fios desfiando ou bem costurados. A grande diferença entre elas está no tamanho, que beira os 10 cm. Apesar de produtos semelhantes na aparência, é notável a falta de padronização de tamanhos adotado por cada empresa. Além disso, os padrões usados no Brasil são embasados em tamanhos europeus ou americanos – e a grande dificuldade é definir um padrão ao brasileiro, já que o país possui muitas etnias. Então como saber se um tamanho 42 de uma loja é realmente um tamanho 42? A superintendente do Comitê Brasileiro de Têxteis e do Vestuário, Maria Adelina Pereira, explica: “As fábricas não deveriam produzir roupas nos tamanhos tradicionais como P, M, G e GG, mas com medidas da peça como altura, tamanho da cintura, quadril, tórax e pernas discriminados na etiqueta.”

Em maio de 1995, a ABNT (Associação Brasileira de Normas Técnicas) criou a norma NBR 13.377, nomeada “medidas do corpo humano para vestuário – padrões referenciais”. Nesse documento, estão as numerações corretas para vestimentas masculinas, femininas e infantis, feitos com base em estudos sobre os tamanhos próximos de um padrão de cada região. Atualmente, a padronização de roupas femininas está sendo desenvolvida por meio de dois scanners da empresa catarinense Audaces que, junto com o Senai, fez estudos antropométricos com 7,5 mil pessoas. A previsão é que a padronização do vestuário feminino ocorra até julho de 2015 – era para ter saído ainda em 2014. Já as roupas infantis e masculinas tiveram a padronização homologada em 2009 e 2012, respectivamente. A diferença de tamanhos causou até briga familiar em pleno Dia das Mães, de acordo com Maria Adelina. A superintendente do CBTV recebeu uma ligação de um filho reclamando que havia comprado o tamanho correto da mãe, porém a peça não tinha servido. “A mulher tentou vestir a roupa no almoço comemorativo, mas não serviu”, conta. “Ela disse que não comeria mais porque tinha engordado, quando eles foram trocar na loja, o tamanho dela seria o GG, mas só naquele estabelecimento”. O Blog do Curioso testou três calças jeans femininas de diferentes lojas e comprovou as diferenças (vide tabela abaixo) – e mostrou que o rapaz não foi o culpado de a roupa não ter servido em sua mãe.


A diferença entre os tamanhos das roupas é palpável para quem trabalha com vestuário. “O trabalho que mais fazemos aqui é de ajuste, porque as roupas são feitas em padrões estrangeiros, mas as brasileiras têm cintura fina e o quadril largo, então tem que modificar”, afirma Soraia Zaidan, dona da “Na Medida Certa” e costureira há 18 anos. “Eu uso calça 46, fui na C&A, comprei uma saia jeans tamanho 40 e saí toda feliz, mas sabia que estava me enganando, porque as roupas não tem um padrão”. Para combater as diferenças de tamanho, a americana Crystal Beasley fundou a startup chamada Qcut, que promete calças jeans em 400 tamanhos diferentes – custando menos de 110 dólares cada. O processo de fabricação das calças consiste em retirar cinco medidas de cada candidata – altura, peso, tamanho do pé, número usual do jeans e tamanho do busto – para construir mais tamanhos possíveis.

 

A falta de padronização nas confecções brasileiras gerou o documentário Fora do Figurino, lançado em 2013 e dirigido por Paulo Pélico. “Queria falar do jeitinho na sociedade brasileira e encontrei esse nicho de como as fabricantes burlam os padrões”, afirma o diretor. Pélico, além de percorrer o Brasil pesquisando sobre os tamanhos de roupa regionais, foi aos Estados Unidos entender como funciona a confecção de vestuário. “Em Manaus, 95% das roupas não servem nos indígenas: quando a cintura está boa, as pernas ficam longas”, conta. “Os americanos também sofrem com a falta de tamanhos, mas só em casos específicos, quando são muito gordos ou altos.” Uma certeza que Paulo Pélico tem é que, enquanto não houver padronização no tamanho das roupas, as costureiras de bairro serão primordiais: “Não tem como viver sem elas, sempre tenho que dar uma ajustada nas roupas”.

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