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O futebol tetracampeão do mundo ainda tem um muro entre os lados ocidental e oriental

18 de julho de 2014

Dos 23 jogadores que celebraram o primeiro título da Alemanha unificada, domingo passado, no Maracanã, apenas um nasceu no lado oriental do extinto Muro de Berlim. Toni Kroos é natural de Greifswald, pequena cidade de 55 mil pessoas. Ele nasceu dez meses antes da reunificação, que aconteceu em 3 de outubro de 1990. O último título da Alemanha tinha sido comemorado em 8 de julho daquele ano. A Seleção da Alemanha Oriental (RDA) fez sua última partida em 12 de setembro, numa vitória de 2 x 0 sobre a Bélgica. Na história das Copas, a Alemanha Oriental teve apenas uma participação. Foi em 1974, justamente na Alemanha Ocidental. As duas seleções se enfrentaram e a Oriental venceu por 1 x 0, gol de Jürgen Sparwasser.  No final, porém, a anfitriã se tornaria campeã e a Oriental ficaria com a  sexta colocação. Nos Jogos Olímpicos, o time de futebol da  Alemanha Oriental conquistou algo que Brasil e Alemanha Ocidental nunca conseguiram: uma medalha de ouro (1976). Também tem uma de prata (1980) e duas de bronze (1964 e 1972).  Na Olimpíada de Munique, aliás, a RDA também venceu os donos da casa.

O único oriental-alemão campeão do mundo

Kroos, o único alemão-oriental campeão do mundo

Enquanto as equipes alemãs do Ocidente são coroadas com títulos europeus, o futebol na divisão do Oriente amarga o esquecimento, apesar de nunca ter perdido para a maior rival do Ocidente. O futebol alemão, junto com o país, ficou dividido de 1949 até 1990. Os orientais jogavam a Oberliga, e os ocidentais, a Bundesliga. O Muro de Berlim simbolizava, além da divisão das Alemanhas, a separação dos clubes esportivos. As duas ligas só se uniram na temporada 1991/92. Os dois melhores times da Oberliga se juntaram aos 18 da Bundesliga na criação de uma liga  nacional.

Hansa Rostock, de 1991: o último campeão da Alemanha Oriental

Hansa Rostock, de 1991: o último campeão na Alemanha Oriental

Dynamo Dresden e Hansa Rostock foram os primeiros clubes orientais a jogar na Bundesliga. O Rostock ficou na 18ª posição e foi rebaixado. O Dynamo conseguiu sobreviver. Porém, de acordo com os jogadores que atuaram na época, a integração não foi simples. O atacante brasileiro Leonardo Manzi chegou na Alemanha três meses antes da queda do Muro de Berlim. Jogou no ocidental St. Pauli, conhecido pela torcida militante do anti-fascismo, de 1989 até 1996. Seus primeiros jogos foram em um quadrangular no lado oriental. “Disputamos a semifinal contra o Dynamo Dresden”, lembra. “A decisão foi para os pênaltis e pedi para bater. Na caminhada até o chute, toda torcida imitava o som de macacos”. Leonardo fez o gol, mas o pior ainda estava por vir. “Na volta, quando atravessamos o Muro de Berlim, havia 3 cães farejadores dentro do ônibus para verificar se não havia fugitivos. Foi assustador.”

O brasileiro Leonardo Manzi atuou nos dois lados do Muro de Berlim

O brasileiro Leonardo Manzi lembra dos cães farejadores depois de uma semifinal do lado oriental do Muro de Berlim

Se na primeira temporada houve somente 2 clubes, o retrospecto piorou ao longo do tempo. De 1991 para cá, foram jogadas 24 ligas nacionais. Das 434 vagas nestes 24 torneios, somente 22 foram preenchidas por times orientais. Os maiores êxitos pós-unificação de times da RDA foram os vice-campeonatos da Copa da Alemanha conquistados pelo Energie Cottbus (1997) e pelo Union Berlin (2001). Essa divisão entre jogadores é clara até hoje, não somente na seleção alemã. Dos 10 atletas do Bayern de Munique campeões europeus em 2013, apenas 2 eram da Alemanha Oriental. O brasileiro Paulo Sérgio, que atuou na Alemanha por 9 anos, vivenciou as diferenças em sua primeira temporada pelo Bayer Leverkusen em 1993: “O elenco era dividido entre ocidentais e orientais. O pessoal da RDA era muito mais frio e rude,  inclusive Andreas Thom e Ulf Kirstein, os que pior me tratavam. Os alemães tinham preconceito entre si.”

O sonho oriental ficou pelo caminho na Copa da Alemanha de 2001

O sonho do Union Berlin ficou pelo caminho na final da Copa da Alemanha de 2001

Dentre as 22 vagas na 1ª divisão preenchidas por times orientais, somente 4 clubes representaram a extinta divisão comunista: Dynamo Dresden, Hansa Rostock, Energie Cottbus (os três atualmente na 3ª divisão) e Lokomotive Leipzig (hoje na 4ª divisão). Nenhuma equipe do lado oriental disputa a Bundesliga desde a temporada 2009/10. Atualmente, os maiores representantes do antigo lado oriental jogam a 2ª divisão nacional: Erzgebirge Aue, RB Leipzig e Union Berlin. A economia, ao menos no âmbito esportivo, ainda não foi igualada. Equipes da Alemanha Oriental não possuem renda para grandes contratações, e a imprensa local lamenta a violência das torcidas. Apesar disso, na temporada passada, Dynamo Dresden e Union Berlin alcançaram a 5ª e a 6ª melhores médias de público na 2ª divisão alemã.  Na Copa de 2006, apenas uma das 12 sedes ficava do lado oriental: a arena de Leipzig, que antigamente abrigava 100 mil pessoas e hoje recebe um público máximo de 44 mil torcedores.

Com 100 mil lugares, o maior estádio alemão ficava no lado oriental

Com 100 mil lugares, a arena de Leipzig, maior estádio alemão, ficava no lado oriental

O antagonismo entre Ocidente e Oriente foi notado por Franklin Bittencourt,  primeiro brasileiro que atuou por um clube do lado oriental. “Os salários dos times da Alemanha Oriental eram muito menores”, diz o atleta que jogou no VfB Leipzig de 1992 até 1998. “Preconceito tinha um pouco, sempre faziam piadas com o lado oposto.” O primeiro brasileiro a marcar um gol no futebol alemão foi Raul Tagliari, que atuou pelo ocidental Duisburg entre 1964 e 1966, depois de ter feito excursões com o Cruzeiro de Porto Alegre na Alemanha Oriental, em 1960; e com o Metropol (SC) na Alemanha Ocidental, dois anos depois. “Parecia que a guerra tinha acabado há pouco tempo”, lembra. “Víamos buracos de tiros de canhão e postos do governo destruídos”. Tagliari garante que não havia diferenças ideológicas no vestiário. “O goleiro Menglitz era o único alemão oriental da equipe. Apesar de ter fugido, ele nunca foi ameaçado. Os colegas gostavam dele”, frisou. “Lembro quando ele comprou um Mercedes e chegou muito feliz no clube. Em campo, ele era muito individualista, combinava mais com o lado ocidental”. Diferentemente de Kroos, o maior passador de bolas alemão e um dos poucos resquícios do futebol na Alemanha Oriental.
(com reportagem de Lucas Strabko)

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2 Comentários

2 Comentários

  1. arão

    Ótima matéria. Estava procurando esses indícios que sempre povoam até nos esportes qdo povos ricos e pobres se unem políticamente.

    Responder
  2. arão

    Ótima matéria. Estava procurando esses indícios que sempre povoam até nos esportes qdo povos ricos e pobres se unem políticamente.

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