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Henrique Serafini, o ídolo palmeirense que jogou com os filhos de Benito Mussolini

27 de agosto de 2014

A menos de 1 quilômetro do Estádio Palestra Itália, na noite em que vários ídolos palmeirenses participavam de uma festa de gala no Citibank Hall em comemoração aos 100 anos do clube, dia 26 de agosto, mãe e filha resolveram tirar a sacola vermelha do armário. Em cima da mesa de jantar, esparramaram fotos, documentos, recortes e páginas de jornais antigos. Uma edição de “A Gazeta”, de 1930, estampava a manchete: “Nós queremos Serafim!”.  Bicampeão paulista pelo Palestra Itália, a história do ídolo esquecido Henrique Serafini é esmiuçada pela filha, Marina Nair Serafini Ferro, 82, e pela neta, Sílvia Helena Ferro, 52. Os 100 anos do Palmeiras não poderiam ser contados sem a figura de Serafini.

Henrique Serafini: ídolo do Palestra Itália

No começo do século XX, o marceneiro Luís Serafini recebeu uma proposta de trabalho em Laranjal Paulista, cidade localizada a 132 km de São Paulo. Em 1º de março de 1904, nasceu Henrique Serafini, filho de Luís e de Rosa Ferrari. O “ragazzo”, de olhos verdes e cabelo castanho, mudou-se para a capital em 1914, mesmo ano de fundação do Palestra Itália. Começou jogando nos campos de várzea próximos à Rua Barra Funda, onde vivia, Serafini era visto chutando bola – mesmo quando deveria estar apertando parafusos, em uma oficina mecânica, seu primeiro emprego. O forte chute e o interminável fôlego chamavam a atenção e, em 1923, o garoto foi levado para o segundo quadro do Palestra Itália, onde não ficou nem 2 meses.

O Palestra que ganhou do Ferencvaros, em 1929: Serafini está ao lado do homem de terno

Serafini jogava como “half-esquerdo”, o que seria hoje um meia-esquerda. O meio-campo palestrino tinha Fabbi e Ítalo. A estreia foi a vitória por 1 x 0 contra o Corinthians, em 15 de abril de 1923. Mais dois jogos e Serafini conquistou a titularidade, que se manteria por quase uma década.  Conquistou o bicampeonato paulista em 1926 e 1927. Formou com Pepe e Gogliardo a “melhor linha média do futebol brasileiro”, como dizia um recorte todo amarelado retirado da sacola vermelha. Os três jogadores receberam um apelido curioso:  “Sissi, Gasosa e Guaraná”, os refrigerantes mais vendidos da época.

Gogliardo e Serafini, em 1929: amigos dentro e fora de campo

“No estádio, os vendedores gritavam: ‘Sissi, Gasosa e Guaraná’, oferecendo os refrigerantes. Então, como os três jogavam juntos, tornou-se o apelido da linha média palestrina”, conta o pesquisador Jota Christianini, autor da  recém-lançada “Bíblia do Palmeirense”.  Apesar do apelido, Serafini não era muito chegado a refrigerantes, que ele dizia terem “gosto de remédio”. Também não deu refresco a um torcedor que lhe desferiu xingamentos. Ele foi até a arquibancada tirar satisfação.

O trio Sissi, Gasosa e Guaraná em caricatura pela “Gazeta Esportiva”, em 1959: “Tenho certeza que o Serafini era o Guaraná”, diz filha

“As próprias agências cariocas são as primeiras a destacar, em grande relevo, o jogador paulista de grande mérito Seraphim”, diz um dos trechos do jornal, que discorre sobre a estreia de Serafini pela Seleção Brasileira. O time escocês do Motherwell foi derrotado por  5×0, em 1928. Pelo Brasil, Serafini nunca perdeu. Atuou em 5 partidas e marcou um gol. Pela Seleção Paulista, o palestrino foi bicampeão brasileiro de seleções em 1926 e 1929. A fama internacional fez com que Amílcar Barbuy o chamasse para jogar na Itália. Serafini nem suspeitava que a transferência o colocaria frente a frente com o Papa Pio XI e o “duce” Benito Mussolini.

A estreia de Serafini, o 9o na foto, na Seleção contra o Motherwell, em 1928

 

Serafini, o 3º em sentido horário, integrou a Seleção Paulista campeã brasileira de 1929

Enquanto fogos de artifício espocavam no bairro, mãe e filha continuavam relembrando das histórias. A bordo do navio Duilio, Serafini e mais oito atletas brasileiros embarcaram para Itália. Em um dos primeiros dias na “Bota”, o secretário papal convidou os brasileiros para um encontro com o Papa Pio XI. Depois de poucos meses, o encontro se consolidou. Zulmira, a mulher de Serafini, estava grávida de Marina e foi convidada pelo Papa para batizar a filha na Basílica de São Pedro. O batismo foi feito no Vaticano e teve  Amílcar Barbuy como padrinho. Nos tempos de Lazio, de 20 de setembro de 1931 a  2 de junho de 1935, Serafini marcou um único gol em 94 jogos. Não conquistou títulos, mas ganhou o carinho de Bruno (1918-1941) e Vittorio (1916-1997) Mussolini, filhos do ditador, que esperavam o final dos treinos da equipe italiana para jogar bola com o brasileiro.

Serafini junto com a esposa Zulmira em viagem para Itália

Quando soube que o ex-palestrino dava tanta atenção aos filhos,  Mussolini mandou chamá-lo para  uma reunião no Palácio Venezia, onde ficava o escritório do líder. O encontro aconteceu na “Sala del Mappamondo”. Com um gesto frio, o italiano autorizou a entrada de Serafini. “Qual é sua descendência?”, perguntou o “Duce”. “Sou italiano”, respondeu o jogador. Então, Mussolini propôs conversar em italiano, mas o brasileiro não sabia. Depois de  repreender o atleta por não saber falar a língua dos ancestrais, Mussolini fez o convite: “Você é muito querido pelos meus filhos. Está convidado para todos nossos almoços de família às quartas-feiras.”

Carteirinha de Serafini na Lazio, onde atuou de 1931 até 1934

Os almoços acabaram em julho de 1935, com a volta de Serafini para o Brasil, depois de ter se lesionado gravemente. Recuperado, jogou por 8 meses no Palestra, de 1935 até 1936. Seu último jogo pelo clube aconteceu em 19 de abril. O Palestra perdeu para o São Paulo por 3 x 2. Foram 131 vitórias e 12 gols em 195 jogos. Atuou pouco na Portuguesa e logo se aposentou. Virou  funcionário da Ford. Em 1945, passou a trabalhar na fabricante de colchões Probel como supervisor da seção de armações metálicas.  Foi derrotado pelo diabetes em  9 de março de 1980. O velório foi preparado pelo ex-goleiro Oberdan Cattani. Chegou a hora de recolher o material e devolvê-lo para a sacola vermelha. A homenagem a Serafini no dia do centenário do Palmeiras estava terminada.

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1 Comentários

1 Comentário

  1. LEANDRO

    Viva Serafini ! Viva Amílcar ! Viva o Palestra !

    Responder

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