Há pouquíssimas informações sobre o Kichute. A São Paulo Alpargatas não tem a menor boa vontade em divulgar a história da marca e tirou até o site do ar. Não encontrei nem mesmo a história do Kichute no livro em comemoração aos 80 anos da Alpargatas. Então o que se lê são basicamente as mesmas curiosidades. Não se sabe, por exemplo, quem teve a ideia de criar a “chuteira com preço acessível” ou quem desenhou o modelo.

O Kichute foi lançado oficialmente em 15 de julho de 1970 – 24 dias depois da conquista do tricampeonato mundial, no México. O Kichute nasceu com o futebol vivendo um momento de muita euforia e reinou nos pés de meninos e meninas por muito tempo.

Em 1960, a Kibon produziu um picolé chamado “Kichute”.  Tudo que encontrei foi um recorte de jornal com o nome do sorvete. Era o anúncio de uma promoção de verão com palitos premiados. Mas não há nenhuma informação sobre o sabor e a embalagem.

Em 1978, ano da Copa do Mundo da Argentina, o Kichute bateu seu recorde de vendas: 9 milhões de pares. A Kichute chegou a lançar também bolas de futebol de campo e de salão. O Kichute começou a “pendurar as chuteiras” no final da década de 1990 e início da década de 2000, quando as chuteiras mais vistosas começaram a entrar no mercado. Uns modelos coloridos, com design totalmente diferente, foram lançados tempos depois com o nome de Kichute.

O Kichute também fez muito sucesso nos países vizinhos Argentina e Uruguai.

Zico foi garoto-propaganda da marca pouco antes da Copa de 1982. O comercial dizia; “A gente logo conhece um craque de futebol. Ele tem jogo de cintura, força, fibra e muita garra. Quem começa no futebol com um craque assim tem tudo para ser um campeão”. O slogan era: Kichute… calce essa força!”.

O Kichute foi bastante utilizado por escaladores (alpinistas), capoeiristas e pilotos de carrinhos de rolimã. Na falta de uma sapatilha de escalada, os alpinistas compravam um número apertado e cortavam as travas da frente. Galvão Bueno chegou a fazer um comercial narrando uma corrida de carrinho de rolimã. Era outra maneira de demonstrar a durabilidade do produto. Nessa época, o slogan era: “Com Kichute, quem ganha é você”.

Em 2003, o escritor Márcio Américo lançou o livro “Menino de Kichute”, que narra a infância de um grupo de meninos durante a década de 1970. O personagem principal, Beto, de 12 anos, sonha em ser goleiro da Seleção Brasileira. O primeiro obstáculo é seu pai.

O livro foi adaptado para o cinema em 2010 pelo diretor Luca Amberg. Tinha no elenco Vivianne Pasmanter, Werner Schunemann e Arlete Salles. Lucas Alexandre fez o papel de Beto. “Meninos de Kichute” ganhou o prêmio de melhor filme do júri popular da 34 ª Mostra Internacional de Cinema de São Paulo.

Está no prelo “O Livro do Kichute”, do jornalista e editor Gonçalo Júnior, que traz o depoimento de 54 pessoas que já marcaram muitos gols com essa mistura de tênis e chuteira. [Atualização: o livro “Quando éramos iguais – Memórias da geração que usou Kichute” foi lançado em setembro de 2022 pela Editora Noir]

Uma famosa loja de calçados de Porto Alegre, Botinha da Zona, tem uma história curiosa com um Kichute. Ela funcionou entre 1919 e 2019. Em 1992, o dono Waldemar Bronzatto comprou a última leva do produto: 3 300 pares de Kichute, Um dos pares veio com numeração errada: um pé tamanho 41 e outro, 42. Bronzatto, que comprou a loja em 1954, guardou um dos pés no depósito e colocou o outro no balcão de atendimento para chamar a atenção dos clientes. Deu certo. Tinha pai que leva o filho até lá para ver o exemplar. Quando a loja fechou as portas, ele levou o par junto como talismã.