Símbolo das Mães da Praça de Maio - imafem Wikipedia

Em 30 de abril de1977, desesperadas com o desaparecimento de seus filhos e filhas, 14 mães vestidas de preto se reuniram na Plaza de Mayo, em Buenos Aires, na frente da Casa Rosada, sede do poder federal. Por causa de sua localização, a praça era o principal ponto de manifestações políticas do país. Ela homenageia o mês de maio de 1810, quando começaram os movimentos que resultaram nas independências de vários países do Cone Sul. A polícia apareceu e mandou que elas circulassem. As mães obedeceram, ou melhor, quase isso. Elas se deram os braços, em duplas, e começaram a caminhar lentamente, em volta do Monumento da Liberdade, no centro da da praça. A partir daí, o movimento passou a crescer semana após semana. Começaram a aparecer também faixas com palavras de ordem e cartazes com fotos dos desaparecidos.

O grupo “As Mães da Praça de Maio”, que chegou a ser chamado de “As Loucas da Praça de Maio”, apareceu em razão direta da ditadura militar, que foi, por sua vez, fruto da Guerra Fria. Os Estados Unidos não queriam que houvesse na América qualquer país governado por alguém que fosse (mesmo levemente) de esquerda e, como aconteceu em abril de 1964 no Brasil, patrocinaram ditaduras de extrema direita em todo o continente.

A ditadura argentina foi chamada oficialmente de “Processo de Reorganização Nacional”. A justificativa era colocar a casa em ordem, especialmente a economia. O que aconteceu foi justamente o contrário: os militares arrebentaram a economia, as estruturas governamentais e democracia. Ao contrário da nossa, que durou cerca de 20 anos, a ditadura argentina começou em 1976 e terminou em 1983 – mas pareceu muito mais. Os presidentes desse período foram Jorge Rafael Videla, o pior de todos (1976 e 1981), Roberto Viola (1981), Leopoldo Galtieri, que humilhou o país com a Guerra das Malvinas (1981 a 1982) e Reynaldo Bignone (1982 a 1983). Pois o saldo foi de 30 mil pessoas mortas ou desaparecidas.

Até que veio a Copa do Mundo de 1978, disputada na Argentina, e as censuradíssimas “Madres” chamaram a atenção de jornalistas do mundo inteiro. Driblando os policiais da ditadura, os repórteres entrevistaram as mães e avós ali presentes. Resultado: a ditadura argentina estampou as manchetes da imprensa mundial. A ditadura reforçou a repressão.

Gustavo Niño, rapaz loiro, de olhos azuis, carinha de anjo, se infiltrou no grupo, dizendo ter um parente preso. As mães logo o apelidaram de “El Rubito” (ou Loirinho em espanhol). Só que o tal Gustavo era, na verdade, um oficial do exército chamado Alfredo Astiz, torturador conhecido como “Anjo da Morte”. Ele delatou várias líderes do movimento. Em 1982, Astiz comandou um dos ataques às Malvinas. E se rendeu no primeiro tiro dos ingleses.

Ao longo do tempo, muitas mães foram presas, torturadas e assassinadas. A fundadora do grupo, Azucena Villaflor, foi uma delas, em 1977.

A curiosidade dolorosa final: as fotos e vídeos mostram as mães da Praça de Maio com lenços brancos na cabeça. Como começou isso? É hábito das mães argentinas guardarem fraldas de seus bebês, como recordação. Não eram, portanto, lenços. Elas amarraram fraldas na cabeça, com os nomes dos filhos bordados, que acabaram se tornando símbolo daquela resistência.

As rondas das Mães de Maio são feitas até hoje, todas as quintas-feiras, às 15 horas. Elas mantêm viva a lembrança da morte e do desaparecimento de 30 mil argentinos.