Novo Livro O Guia dos Curiosos - Edição Fora de Série

Morcego, ratazana, baratinha e companhia, está na hora da feitiçaria!

25 de maio de 2020

Lançado em 9 de maio 1994 pela TV Cultura, o “Castelo Rá-Tim-Bum” é até hoje a maior produção infantil já feita pela TV brasileira. O projeto, que entrou para a memória afetiva de tantas gerações, é esmiuçado no livro “Raios e Trovões – A História do Fenômeno Castelo Rá-Tim-Bum”, do jornalista Bruno Capelas. O “Castelo” teve um total de 90 episódios de 30 minutos, exibidos até 24 de dezembro de 1997 e reprisados depois por vários anos. Confira a entrevista de Bruno Capelas para o “Você é Curioso?” de 07/12/2019

Bruno, qual é a sua idade? Vamos ver se o “Castelo Rá-Tim-Bum” influenciou mesmo a sua vida…
Tenho 27 anos, nasci em 1992, então eu faço parte da geração Cultura. Chegava da escolinha e, enquanto minha mãe fazia o jantar, e eu assistia ao Castelo.

Como nasceu a ideia do livro?
O livro, na verdade, nasceu de uma necessidade acadêmica. Precisava de um tema para meu TCC (Trabalho de Conclusão de Curso) e queria que fosse algo “muito meu”. Até que, um dia, vendo TV com minha irmã, acabamos caindo no “Castelo”. Ficamos assistindo juntos e, no final, cheguei à conclusão que aquele seria o meu tema. Queria descobrir como o programa, que marcou minha infância, tinha sido feito. Depois do TCC entregue e de mais alguns anos de trabalho, o livro saiu.

Você conta no livro que entrevistou 30 pessoas que participaram de toda a criação do programa. Como nasceu o “Castelo” dentro da TV Cultura?
O “Castelo” surge como uma continuação do “Rá-Tim-Bum”, primeira grande produção infantil da Cultura, dirigido por Fernando Meirelles e Marcelo Tas. Esse programa teve 190 episódios de muito sucesso. A Cultura pediu um segundo programa, mas o Meirelles e o Tas não estavam disponíveis. Por isso, a emissora convidou o Cao Hamburger e o Flávio de Souza para essa nova produção. Eles começaram a ter tantas ideias que o novo programa virou uma coisa muito cara e muito maluca. Decidiram, então, pegar apenas um pedaço, que era a história de um cientista dentro de um castelo, em uma colina, uma coisa meio Frankenstein. O programa foi aprovado e iria se chamar “Castelo Encantado”. Na hora de pedir apoio, a Cultura procurou a FIESP (Federação das Indústrias do Estado de São Paulo), patrocinadora do “Rá-Tim-Bum”. A FIESP disse que só patrocinaria o projeto se ele chamasse “Castelo Rá-Tim-Bum”. Assim a TV Cultura acabou criando a franquia.

Quais foram as referências para o surgimento dos personagens?
São muitas, vou dar alguns exemplos. A ideia dos personagens que visitam o Castelo, como Bongô, Penélope, Doutor Abobrinha e Etevaldo, foi toda inspirada no Batman dos anos 1960. O Cao Hamburger assistia ao seriado quando era criança e comentou comigo: “Cada episódio tem um vilão diferente e de um jeito diferente, o que torna os episódios do Coringa diferentes dos episódios do Pinguim e da Mulher Gato”. Ele quis trazer essa característica para o “Castelo”. O Doutor Vítor veio de Victor Frankenstein, o criador do monstro na história da Mary Shelley. O Nino é inspirado na personagem Nina do “Rá-Tim-Bum”, que anda com uma boneca careca. As fadas Lana e Lara são nomes tirados de duas paixões de Fábio de Souza: a atriz Lana Turner a Lara, personagem do romance “Doutor Jivago” [do escritor russo Bóris Pasternak].

O Nino virou um personagem que ficou até maior do que o próprio Castelo. Tem alguma história por trás da escolha do ator Cássio Scapin?
O Phillippe Barcinski, que era estagiário do Cao Hamburger e hoje é diretor de TV, ia muito ao teatro. Na época, ele foi ver o ator Cássio Scapin em uma peça chamada “Tamara” e o convidou para fazer um teste. A curiosidade é que o Cássio não se dava bem com crianças e resolveu que, para lidar com isso, teria que ser mais chato do que elas. Tem uma história em que a Cynthia Raquel, a Biba, usava sempre um short por baixo do vestido, que era o figurino da personagem. Certo dia, justo quando não estava usando a peça, Cynthia foi virada de cabeça para baixo por Cássio.

Tem alguma outra curiosidade sobre a escolha do elenco?
Nos planos originais, Nino e Morgana não seriam interpretados por Cássio Scapin e por Rosi Campos. Os escolhidos eram Ary França e Mirian Muniz. Encontrei isso em um documento interno da TV Cultura. Penélope seria feita por Denise Fraga, que estava bombando na época com a peça “Trair e Coçar é só Começar”. Ela acabou assinando com o SBT para fazer uma novela que nunca foi ao ar.

Os bordões, como o “É Hora da feitiçaria” e “Raios e Trovões”, foram todos criados por Flávio de Souza?
Não. O “Castelo” tinha uma equipe de vários roteiristas, que incluía Ana Muylaert, Dionísio Jacob, mais conhecido como “Tacos”, e Fernando Bonassi.

Como era a audiência?
Quando estreou, a média do “Castelo” era de 6, 8 pontos [o recorde foi de 14 pontos]. Quando passava à noite, no horário nobre, chegava a roubar o segundo lugar do SBT. Tem uma história engraçada, de quando o Silvio Santos pegou avião com o Roberto Muylaert, então presidente da TV Cultura. Eles estavam conversando e o Silvio disse: “Eu ficava incomodado porque vocês faziam uns programas legais, roubavam audiência, mas não ganhavam dinheiro com isso”.

Além do programa, o “Castelo Rá-Tim-Bum” já foi tema de livro, exposição, filme… E tudo isso ainda chama muita atenção nos dias de hoje. Tem alguma explicação que a gente possa dar como segredo desse sucesso?
Acho que são vários fatores envolvidos. O primeiro é que o “Castelo” trata a criança com respeito e inteligência. Quer ensinar alguma coisa para a criança? É só colocar no contexto que ela entende. Pode ser Manuel Bandeira, Paulo Leminski ou Leonardo da Vinci… Outra coisa importante é que a TV Cultura vinha fazendo programas infantis ao longo de uma década. Várias pessoas aprenderam a fazer TV para criança, com uma experimentação que fizesse sentido. Esse clima criativo se refletiu no “Castelo”. O formato também era inovador: tinha muita coisa diferente para várias idades e tipos de crianças. Legal também era o conceito de família, algo que o Flávio de Souza roubou da Disney: não há a figura do pai e da mãe, mas sim do tio e da tia, e isso contempla qualquer criança.

Era uma produção muito cara?
Era cara para os padrões da TV Cultura na época. Mas o “Castelo” era cheio de coisas um pouco improvisadas, um pouco engenhosas. No quadro dos passarinhos, por exemplo, as duas atrizes, Ciça Meirelles e Dilmah Sousa, eram fixas. Ao contrário do que diz uma lenda urbana da internet, Sandra Annenberg nunca participou do programa. Já o passarinho, interpretado por um músico, mudava de acordo com o instrumento. Como havia um único figurino, a ideia foi criar uma roupa de lycra, que servisse tanto no mais magrelo quanto no mais corpulento.

Leia também: Leilão da exposição “Castelo Rá-Tim-Bum” teve peças arrematadas por até 460 reais

Quem cuidou da trilha sonora?
A trilha sonora é coisa de primeiro time, formado por Hélio Ziskind, André Abujamra e Luiz Macedo. O Hélio conta uma coisa muito legal também da música “Passarinho, que som é esse?”. O objetivo era ensinar a criança como era cada instrumento. Então a mesma música, que mantinha algumas partes iguais, ia variando de acordo com o improviso do som do instrumento. Uma sacada genial!

O “Castelo” foi vendido para outros países?
Ele chegou a ser exibido em outros países da América Latina, como Cuba e Venezuela. Mas fez pouco sucesso por causa da dublagem, uma dificuldade que a TV Cultura apresentava.

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