Pouco se fala sobre as primeiras brasileiras que escreveram literatura fantástica (a ficção científica, a fantasia e o horror). Desde o final do século XIX, o país sempre tivemos narrativas utópicas, fantasias moralizantes e romances de ciência. Mas a discussão e o debate sobre o gênero pouco existiram. Apenas recentemente críticos e acadêmicos começaram a tirar o véu da invisibilidade e assim vislumbrar que esse não é um planeta desabitado.

O livro “A Rainha do Ignoto“, escrito pela cearense Emília Freitas em 1899, é considerado o primeiro romance fantástico nacional. A trama é sobre uma comunidade utópica de mulheres na Ilha do Nevoeiro que lideradas por uma rainha misteriosa resgata mulheres que sofrem de violência, solidão ou depressão. Essa sociedade pautada pelo racionalismo antecipa obras como “As Brumas de Avalon“, da americana Marion Zimmer Bradley, ao abordar os mistérios femininos.

 “A Rainha do Ignoto“, escrito pela cearense Emília Freitas

Outra pioneira foi a paulista Adalzira Bittencourt com seu romance “Sua Excia. a Presidente da República no ano 2500”. O livro discute reforma social por meio de políticas publicas e as ideias do movimento eugenista, que propõe a “melhoria da espécie” com medidas para a promoção da higiene e da saúde. Era a mesma visão de Monteiro Lobato. Seu romance de ficção científica, “O Presidente Negro ou O Choque das Raças“, fala sobre segregação e esterilização de uma população.

Adalzira Bittencourt com seu romance "Sua Excia. a Presidente da República no ano 2500A escritora carioca Júlia Lopes de Almeida foi uma das primeiras a tematizar o insólito. Com uma obra literária sólida, ela escreveu romances, contos, crônicas, ensaios, peças de teatro. Seu livro “Ânsia Eterna“, de 1903, traz vários contos fantásticos. Ela participou da criação da Academia Brasileira de Letras, mas não pode assumir uma cadeira por ser mulher.

livro "Ânsia Eterna"

Somente anos mais tarde, uma mulher pode ser empossada na Academia: a paulistana Dinah Silveira de Queiroz. Seu romance “Margarida La Rocque: a Ilha dos Demônios”  usa o gênero fantástico para questionar as estruturas patriarcais de sua época. Com os livros de ficção científica “Eles Herdarão a Terra“, de 1960, e “Comba Malina”, de 1969, Dinah questionou os estados autoritários, o controle da mídia, a herança escravocrata e as relações coloniais.

Dinah Silveira de Queiroz

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