O pastel de nata, um dos doces mais emblemáticos da gastronomia portuguesa, tem origem conventual e remonta ao início do século XIX. Depois da Revolução Liberal de 1820, o governo português decretou, em 1834, a extinção das ordens religiosas e o fechamento de mosteiros e conventos. O Mosteiro dos Jerónimos, na freguesia de Belém, em Lisboa, foi um deles. O que se conta é que um dos funcionários do mosteiro – provavelmente um cozinheiro – foi trabalhar numa refinaria de açúcar, perto dali.
A refinaria pertencia ao comerciante e confeiteiro português Domingos Rafael Alves, que havia mantido negócios de extração de açúcar no Brasil, mas voltou a Portugal por questões de saúde da mulher. O cozinheiro levou com ele a receita dos pastéis, que combinavam açúcar, leite, limão e canela com as gemas que sobravam no mosteiro. [Nos antigos mosteiros e conventos, especialmente em Portugal entre os séculos XVI e XIX, a clara de ovo era usada para engomar roupas eclesiásticas, como hábitos de freiras e batinas de padres.]
Em 1837, Domingos abriu a Fábrica dos Pastéis de Belém, onde o doce passou a ser produzido com exclusividade. Ele comprou a receita em 1879. Desde então, apenas essa confeitaria utiliza a receita original, mantida em segredo e conhecida por poucos mestres pasteleiros. São os verdadeiros Pastéis de Belém. As versões produzidas em outras confeitarias passaram a ser chamadas genericamente de pastéis de nata, embora utilizem ingredientes semelhantes.
Como as claras eram usadas para engomar as roupas eclesiásticas?
As claras eram batidas levemente e misturadas com água. Essa solução era aplicada nas roupas lavadas. A mistura era espalhada sobre o tecido, que depois era estendido para secar. Ao secar, a clara endurecia e dava firmeza ao tecido. Depois da secagem, as roupas eram passadas com ferro quente, o que fixava ainda mais a goma e deixava o tecido com aparência rígida e bem alinhada. Esse método era valorizado por dar um acabamento elegante e resistente às vestes religiosas, que exigiam aparência impecável. Como Portugal era um dos maiores produtores de ovos da Europa, o uso das claras para engomar era uma solução prática e econômica.
