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Livros contam a história de jornais brasileiros que deixaram de circular

21 de março de 2016

Jornais importantes pararam de circular nos últimos anos e suas histórias começam a ser contadas agora. O Jornal da Tarde foi o periódico que marcou a minha adolescência e tive o prazer de assinar a coluna “Curiocidade” entre 2002 e 2012. A coluna foi a semente para o nascimento do blog São Paulo para Curiosos. Amanhã, terça-feira (22), o jornalista Ferdinando Casagrande irá lançar o e-book “Jornal da Tarde – Uma Ousadia que Reinventou a Imprensa Brasileira”. “Quis resgatar a memória do jornal que encantou tantos jovens leitores, como eu”, diz Ferdinando. “Decidi ser jornalista por causa do JT. Foi uma grande escola para mim”.

Este foi o primeiro emprego em redação do jornalista. Ele ficou lá por seis anos. “O JT inovou no conteúdo e na diagramação. Mais do que a notícia, o que importava era a história que havia por trás da notícia. Cada reportagem tinha tratamento individual, com a diagramação feita sob medida para aquela história. O padrão era não ter padrão”, completa. O Jornal da Tarde circulou entre 4 de janeiro de 1966 e 31 de outubro de 2012. Inicialmente vespertino, passou a matutino em 1988.

Trecho do livro “Jornal da Tarde – Uma Ousadia que Reinventou a Imprensa Brasileira”:
“Em abril de 1972, o repórter Ewaldo Dantas Ferreira desapareceu repentinamente da redação. Ninguém sabia onde ele estava. Apenas Murilo Fesliberto (editor-chefe) e Ruy Mesquita (diretor de redação) sabiam que ele havia embarcado para a Bolívia numa missão sigilosa para tentar localizar um criminoso da Segunda Guerra Mundial chamado Klaus Barbie – que se naturalizara boliviano e usava o nome de Klaus Altmann. Ewaldo localizou Barbie, conseguiu um depoimento bombástico em que ele admitia ser o criminoso de guerra que chefiara o comando da SS em Lyon, na França. Barbie descrevia em detalhes como capturara o chefe da Resistência Francesa durante a guerra, Jean Moulin, que fora executado pelos nazistas.”

E-book de Ferdinando Casagrande traz memórias do “Jornal da Tarde”: a história por trás da notícia

Outro jornal que ganhou um livro póstumo foi o Jornal do Brasil, fundado em 1891, no Rio de Janeiro. Embora ainda exista a versão digital, a impressa deixou de circular em agosto de 2010. Em “Jornal do Brasil – História e Memória”, terceiro livro da jornalista Belisa Ribeiro, há uma série de depoimentos de profissionais que passaram pela publicação, como Alberto Dines, Walter Fontoura, Norma Couri, Ique, Marina Colassanti e Tarcisio Baltar. “O jornal fez uma série incansável sobre o atentado no Riocentro, que desmoralizou a versão dos militares e deixou clara a responsabilidade do Exército no atentado que poderia ter matado milhares de jovens e artistas, como Gonzaguinha e Chico Buarque, que cantavam em um show na véspera do Dia do Trabalho em 1981”, conta Belisa, que também prepara um documentário sobre o jornal.

Uma história que Belisa gosta de contar é a de Edílson Martins, que já havia sido repórter do JB e trabalhava como freelancer. Ele foi procurado por Chico Mendes, acriano como ele e seu amigo de infância. Mendes contou que estava sendo ameaçado de morte. Edilson fez uma entrevista com ele e a ofereceu para o Jornal do Brasil, pensado que com isso garantiria segurança para o amigo. Só que o jornal  não publicou a reportagem e Chico Mendes foi assassinado poucos dias depois”

A jornalista Belisa Ribeiro colheu depoimentos de profissionais que escreveram a história do “Jornal do Brasil”

Trecho de “Jornal do Brasil – História e Memória”:
“Jorge Antônio Barros, ganhador de dois Prêmios Esso, era propagandista de uma loja de relógios no Centro do Rio. Ele ficava na porta chamando as pessoas para entrar. Um dia, viu parado próximo à porta um carro do Jornal do Brasil. Ele sonhava em ser repórter do jornal. Foi lá e perguntou ao motorista: ‘Como eu posso fazer um estágio no JB?’.  O motorista indicou que ele fosse até a sede e procurasse o ‘Seu Walter, editor-chefe’. Jorge ainda argumentou que deveria ser difícil ser recebido pelo editor-chefe, ao que o motorista respondeu: ‘Que nada, já trabalhei para ele. É um cara legal’. Jorge foi em um sábado, seu dia de folga, Walter Fontoura estava lá e o recebeu! E ainda lhe deu o estágio…O estagiário retribuiu muito bem, conseguindo em pouco tempo entrar em um presídio disfarçado de pastor protestante e dando um furo sensacional que saiu na primeira página.
Esses não foram os dois únicos jornais que encerravam suas atividades e que ganharam livros.

O Blog do Curioso fez uma seleção de alguns títulos que ainda podem ser encontrados em livrarias e sebos:

“Os Ferrões”

“Os Ferrões” circulou em 1875 e atormentava as figuras públicas

Organizador: José Leonardo do Nascimento
Editora: Unesp (2014)
Páginas: 312

O livro é a reunião de dez edições do quinzenário “Os Ferrões”, que circulou no Rio de Janeiro entre junho e outubro de 1875. José Leonardo do Nascimento organizou informações históricas e sociais relevantes do Segundo Reinado do Brasil. O nome faz referência ao verbo “ferroar”, que significa atormentar – no caso, figuras públicas. Nem a Princesa Isabel e o escritor Machado de Assis escaparam. José do Patrocínio e Demerval da Fonseca, fundadores da publicação, estavam no começo da carreira e se identificavam pelos codinomes “Notus Ferrão” e “Eurus Ferrão”.

“Samuel Wainer, Minha Razão de Viver – Memórias de um repórter”

Capas das edições da Editora Record (1987) e da Planeta do Brasil (2005)

Autor: Augusto Nunes, com Pinky Wainer (filha de Samuel)
Editora: Record (1987); Planeta do Brasil (2005)
Páginas: 368

Samuel Wainer foi fundador, editor-chefe e diretor de “Última Hora” – diário vespertino que durou de 1951 a 1971, quando foi vendido para a Folha da Manhã. Com pouco texto e muitas manchetes, ganhou fama por proporcionar um suporte político ao presidente Getúlio Vargas. Wainer deixou suas memórias gravadas com a filha, Pinky Wainer, que contou com a ajuda do jornalista Augusto Nunes para dar vida à obra. O livro, lançado em 1987 pela Editora Record, ganhou nova edição em 2005 pela Planeta do Brasil.

“Nada Mais que a Verdade – A Extraordinária História do Jornal Notícias Populares”

Notícias Populares: no melhor estilo “espreme que sai sangue”

Autores: Celso de Campos Jr.,Maik Rene Lima,Giancarlo Lepiani,Denis Moreira
Editora: Summus Editorial (2011)
Páginas: 256

Conta a trajetória do jornal “Notícias Populares”, famoso por seu estilo “espreme que sai sangue”. Irreverente e sensacionalista, ele circulou entre 1963 e 2001. Nasceu como um trabalho de TCC. Os quatro autores contam que gostavam de ler o NP nos intervalos para darem um pouco de risada. “Ele era naturalmente engraçado, gostava de gozação e de piadinhas de duplo sentido, como o povo brasileiro”, diz Denis Moreira, um dos autores do livro. “Em toda capa tinha uma mulher seminua fazendo poses sensuais porque era o que o povo queria ver”, afirmou Celso de Campos Jr. num vídeo publicado pelo portal Daqui TV.  “Um jornal popular é baseado em crimes, esporte e sexo. Assuntos como esses nunca faltaram para o jornal, que tinha a sede logo ao lado de uma área de prostituição”.

Chatô, o Rei do Brasil”

Chatô: dono de um dos maiores impérios da comunicação da América Latina

Autor: Fernando Moraes
Editora: Companhia das Letras (1994)
Páginas: 736

O paraibano Francisco de Assis Chateaubriand Bandeira de Mello (1892-1968),  o “Chatô”, foi dono de um dos maiores impérios jornalísticos da América Latina.  O grupo “Diários Associados”, fundado em 1924, era formado por quase cem jornais, revistas, estações de rádio e de televisão. Ganhou destaque com a TV Tupi – primeira emissora do Brasil – e com O Cruzeiro – revista de enorme circulação.  A biografia foi escrita por Fernando Moraes e, este ano, finalmente ganhou uma versão para cinema, dirigida por Guilherme Fontes. Chateaubrind foi membro da Academia Brasileira de Letras.

“Dependência ou Morte”

dep

História do jornal que durou apenas 6 meses

Autor: Vera Lúcia Rodrigues
Editora: Germinal (2004)
Páginas: 246

O livro é baseado num estudo do Jornal da República, que circulou por apenas seis meses – de 27 de agosto de 1979 a janeiro de 1980. Vera Lúcia aborda desde o lançamento, a estrutura de redação e a proposta editorial até a luta pela independência, a conjuntura brasileira da época e os motivos que levaram ao fechamento do jornal. Conta com depoimentos dos principais editores e responsáveis pela idealização do jornal, como Mino Carta, Armando Salem, Ricardo Kotscho e Wilson Hilário Borges.

“Um jornal assassinado – A última batalha do Correio da Manhã”

Jornal que fazia oposição sistemática aos presidentes sucumbiu durante o regime militar

Autor: Jeferson de Andrade
Editora: José Olympio
Páginas: 400

Traz os últimos anos do periódico “Correio da Manhã”, fundado por Edmundo e Paulo Bittencourt, no Rio de Janeiro. O jornal circulou entre 1901 e 1974. Sua principal característica era fazer oposição aos presidentes da República do período. Por isso, o jornal foi fechado diversas vezes. Uma curiosidade:  o escritor Lima Barreto usou sua experiência na redação do jornal para criar o personagem Isaías Caminha [Recordações do Escrivão Isaías Caminha]. Os colegas, que se identificaram com os relatos do personagem, ficaram fulos com Barreto. Com o regime militar no poder, o Correio da Manhã não sobreviveu. A proprietária Niomar Moniz Sodré e os principais redatores do jornal chegaram a ser presos.

“A primeira gazeta da Bahia – Idade d’Ouro do Brazil”

Linha editorial do jornal baiano lutava pela manutenção do Brasil colonial

Autor: Maria Beatriz Nizza da Silva
Editora: EDUFBA
Páginas: 374

Maria Beatriz conta a história da primeira gazeta da Bahia. A “Idade d’Ouro do Brazil” entrou em circulação em 1811, ainda no período colonial. A partir do movimento constitucional na Bahia, em fevereiro de 1821, “a gazeta baiana se tornou abertamente partidária do constitucionalismo monárquico, atacando o ministério do Rio de Janeiro por ainda não ter aderido às Cortes de Lisboa”, descreve o livro. Devido à linha editorial voltada à manutenção do Brasil colonial, o jornal deixou de circular em 1823 com a expulsão das forças portuguesas da Bahia.

A título de (mais) curiosidades, o Blog do Curioso também destaca um livro escrito por uma brasileira, mas que trata de um jornal que circulou na Alemanha hitleriana.

“A Cozinha Venenosa”: pequeno jornal de Munique que atazanou a vida de Hitler

O título “A Cozinha Venenosa” faz referência à maneira como Adolf Hitler rotulou o jornal, apontando seu caráter judeu e marxista. O Münchener Post tentou combater Hitler desde que ele surgiu no cenário político. Destacando as façanhas e atrocidades características do nazismo, o livro conta como um jornal com poucos colaboradores e pequena tiragem tanto incomodou o líder e também Ernst Röhm, comandante de seu exército particular. Essa batalha contra a ideologia fascista durou 10 anos e foi marcada por atentados à redação e aos redatores.

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