Os habitantes de Santa Cruz Cabrália, no sul da Bahia, continuam rindo de orelha a orelha. A cidade, a 22 km de Porto Seguro, ganhou notoriedade por ter abrigado o centro de treinamento da Seleção da Alemanha, campeã mundial de 2014. Mas, muito antes de os alemães aportarem por lá, o local já era destino de turistas com um interesse bastante específico: doces caseiros.

Quem desembarca no vilarejo não demora em ouvir as histórias de uma doceira que fabricava seus produtos em uma ilha local e que viajava todos os dias até a terra firme para vender guloseimas. Com o aumento da demanda, a prefeitura prometeu à senhora que levaria seus clientes à ilha, transformando o lugar em um ponto turístico da região. O sucesso foi tanto que o local ficou conhecido como Ilha dos Doces. A história é consagrada na região, mas calma lá: a maior parte dela foi inventada. Quem garante é Dorival dos Reis, 41 anos, dono da Ilha do Sol – nome verdadeiro da Ilha dos Doces – e filho de Ivone dos Reis, hoje com 90 anos, a primeira doceira do lugar.

Há 70 anos, o construtor de barcos José dos Reis, avô de Dorival, comprou a Ilha Paraíso, localizada a 6 quilômetros da Ilha do Sol. Lá, seu pai, Dermeval, abriu, no início da década de 80, um restaurante de frutos do mar, que alavancou o turismo na região. Dorival e sua mãe, Ivone, ficavam na cozinha fazendo os doces para a sobremesa. Ele não recebia salário por trabalhar com o pai. “Para ganhar algum dinheiro, combinamos que eu ficaria com o lucro dos doces”, conta. Como a clientela do restaurante era basicamente formada pelos turistas que visitavam a ilha, os guias passaram a cobrar uma comissão de 10% da arrecadação mensal do local. Só que a cobrança não agradou Dermeval, que decidiu encerrar as atividades do restaurante para focar na produção dos doces. “Era mais lucrativo, não tinha a tal comissão e demandava menos mão de obra”, resume Dorival.

Em 2003, Dermeval vendeu a Ilha Paraíso a um empresário. Um mês depois, Dorival comprou a Ilha do Sol. Lá, ele construiu um grande casarão para abrigar as vendas dos doces. Hoje, depois de uma reforma, o lugar conta com 210 metros quadrados. O empresário conta que sua mãe, a doceira responsável por tudo aquilo, quase não visita a Ilha do Sol. A produção é mantida com o trabalho de 20 funcionários, que todos os meses usam 15 mil cocos para fabricar 120 tipos de doces, e oferecê-los aos 1 mil visitantes diários que desembarcam em sua ilha. O local funciona de domingo a domingo, das 8h30 até a partida da última escuna.

Dois doces se destacam no vasto cardápio da Ilha do Sol: a Cocada Assada (R$ 7 a porção de 350 g) e o Viagra do Baiano (R$ 6 a porção de 300 g), uma mistura de amendoim, catuaba, guaraná em pó e coco. A ilha abriga ainda barraquinhas de artesanatos e de bebidas típicas da região. Tudo feito em família: quem prepara as bebidas é Bérgson, primo de Dorival.