Sou do tempo em que íamos às agências bancárias com nossos cofrinhos para depositar na caderneta de poupança as moedas juntadas no mês. As máquinas eram gigantescas e nós, crianças, nos divertíamos quando elas entravam em ação, separando as moedas por valores e anunciando o total. Esse momento nostalgia me bateu no final de semana, fazendo compras num supermercado perto de casa. Na saída, eu me deparei com uma máquina chamada CataMoeda. De acordo com o Banco Central, 7,2 bilhões de moedas estão escondidas em cofrinhos, fundos de gaveta, bolsas, bolsos ou debaixo de bancos de automóveis e de almofadas de sofás.

São 850 milhões de reais fora de circulação, que inviabilizam o troco do comércio e prejudicam até o meio-ambiente. A máquina foi uma forma criada pelo empresário Victor Levy para resgatar essas moedas. Em três anos, a Cata Moeda foi responsável por recolocar na praça 685 milhões de moedas – ou 10% de toda a produção da Casa da Moeda no ano passado. Para produzir moedas, o país gasta por ano cerca de 15 mil toneladas de minérios e energia suficiente para abastecer 1.348 residências durante um mês. O Brasil gasta nessa operação 1,8 bilhões de reais por ano.

máquina chamada CataMoeda

“Crianças e adultos passam pelos supermercados e ficam curiosos, com vontade de usá-la”, conta Natália Izidoro, gerente de marketing da CataMoeda . O protótipo da máquina foi testado em 2012 num supermercado do bairro do Morumbi, zona Sul de São Paulo. A primeiro CataMoeda oficial foi instalada no ano seguinte na maior rede de supermercados do Paraná, a Condor, em Curitiba. Em três anos, 162 dessas máquinas já se espalharam pelo Brasil –  76 delas no Estado de São Paulo.  Para alugar uma CataMoeda,  o comerciante tem dois modelos de negócio: ou paga uma mensalidade (varia entre 1 mil e 2 mil reais) ou paga uma taxa de 5% do valor arrecadado em moedas no mês. Redes como Poupa-Farma, Carrefour, Záffari, Extra, Pão de Açúcar, Angeloni e AMPM estão entre as empresas que aderiram a ideia.

A distribuição foi facilitada por uma parceria firmada em 2015 com a Prosegur, companhia de segurança e transporte de valores. Em fevereiro passado, por exemplo, a máquina chegou também à região Norte do país pelas mãos da Rede de Drogaria Santo Remédio, em Manaus “Ficamos impressionados com a quantidade de moedas que foram colocadas em circulação em tão poucos dias”, comemora Noberto Colla, diretor de logística do supermercado Angeloni.

Enquanto engole as moedas, o equipamento vai informando na tela o valor depositado. Se o valor depositado for maior que 5 reais, o consumidor tem ainda direito a se divertir com um joguinho.  Ao final da operação, o dono das moedas tem três opções: emitir um vale-compras a ser utilizado no próprio estabelecimento – em geral, com um bônus de 2% a 10% -, trocar o valor do depósito por cédulas ou doar o dinheiro uma instituição de caridade escolhida pelo comerciante. Em alguns casos, a terceira alternativa não é habilitada pelo estabelecimento. Ela é também a menos frequente entre os usuários (não chega a  5% dos depósitos).

A vantagem para os comerciantes está relacionada à comodidade. Sem mais precisar implorar por trocados em bancos ou comércios vizinhos, eles recebem as moedas sem sair do lugar. As pessoas são atraídas pela máquina e pelo bônus. “A Associação Comercial do Amazonas nos informou que alguns empresários pagam até um preço maior para obter as moedas e suprir as necessidades dos clientes, que pode chegar a 15% a mais”, explica Natália.

Na prática, porém, a CataMoeda pode passar despercebido em meio ao corre-corre dos varejos. O blog fez um teste no supermercado Pão de Açúcar, na Rua Teodoro Sampaio, em Pinheiros, São Paulo. Maior rede de supermercados do Brasil, o Pão de Açúcar está testando a máquina em duas de suas 1 182 lojas. A outra está na unidade da rua Pamplona, nos Jardins. Durante toda uma manhã, a reportagem não viu ninguém utilizando a máquina. Uma funcionária informou que ela está ali há quatro meses e que a média costuma ser de três pessoas por dia.  “A máquina acaba sendo útil só quando as pessoas trazem uma quantidade muito grande de moedas”, explicou a funcionária. “Do contrário, eles trocam por notas no caixa mesmo”. Ela disse que a Cata Moeda não deverá continuar no estabelecimento.

O site do projeto faz a contagem em tempo real do valor arrecadado, da quantidade de depósitos feitos, do número de moedas inseridas, do montante correspondente ao bônus cedido aos depositantes e da economia de energia e de minérios. Até o dia de hoje, 19 de abril de 2016, por exemplo, 21.914.664,00 reais saíram dos cofrinhos e entraram no mercado. “Para melhorar nosso serviço, as inovações tecnológicas estão vindo a todo vapor”, conta Natália, da Cata Moeda.  “O fluxo constante de moedas conquistadas pelas nossas máquinas seria muito difícil por outros meios”.

Atualização em 20/04/2016:  A respeito das máquinas no Grupo Pão de Açúcar, Natalia Porto, assessora de imprensa da CataMoeda, enviou o seguinte esclarecimento: “A CataMoeda não recebeu nenhum indicativo do Pão de Açúcar sobre a descontinuidade do serviço. Na verdade, eles estão fazendo testes em cinco estabelecimento da rede para identificar perfis de lojas de interesse e, sobretudo, estratégias para incentivar o uso das máquinas e ampliar os resultados. Claro que o desempenho depende de vários fatores estruturais, como a região em que a máquina está inserida, a sinalização do equipamento e etc. Também, há sazonalidades de uso: períodos com mais procura ou não”.