“No Carnê do Baú, só uma pessoa em cada 10 mil paga, e o Silvio Santos é um dos homens mais ricos do Brasil. Já o carnê do IPTU todo mundo paga, e as prefeituras estão sempre quebradas. Isso é um fenômeno que precisa ser explicado”. Essa frase foi dita em 2004 por Fernando Chiarelli, candidato a prefeito de Ribeirão Preto (SP) pelo PT do B.

Prestes a completar 50 anos, o Carnê do Baú é o nome carinhoso que recebeu o Carnê de Mercadorias, da empresa Baú da Felicidade. Acontece que os jornais noticiaram hoje que o negócio, que pertence ao dono do SBT, está com os dias contados. O Carnê do Baú funciona assim: o cliente compra o carnê e vai pagando parcelas mensais. Pagar “rigorosamente em dia” também tinha suas vantagens. Alguns eram sorteados para ganhar prêmios em atrações como o “Peão do Baú” e o “Festival da Casa Própria”. Ao terminar de pagar o carnê, o valor pago podia ser trocado por mercadorias das Lojas do Baú.

Silvio Santos e Maria Guida, uma ex-sócia do empreendimento, compraram o Baú da Felicidade de Manuel da Nóbrega, que comandava o programa humorístico “Praça da Alegria” na antiga TV Paulista. A empresa do humorista vendia baús com presentes de Natal a prestações. Os clientes encomendavam cestas de Natal e iam pagando ao longo do ano para receber depois. Não deu certo. Silvio reformou o negócio e fez fortuna com ele. Quando ganhou sua primeira concessão de TV, a TVS, do Rio de Janeiro, Silvio convidou Manuel de Nóbrega para ser diretor. Nessa época, Silvio comandava também a loja de móveis Tamakavy e a concessionária de veículos Vimave. A primeira não existe mais.

Em 1981, o Sistema Brasileiro de Televisão nasceu do crescimento da TVS. Passou a ter o nome de SBT em 1987. Hoje, 24 anos depois da morte de Manuel, o programa humorístico, rebatizado de “A Praça É Nossa”, continua na emissora de Silvio Santos. A atração é comandada pelo filho de Manuel, Carlos Alberto, e dirigida pelo neto, Marcelo.

A partir de 2007, o empresário iniciou o processo de extinção do Carnê de Mercadorias. Ele parou de ser comercializado e a equipe de vendedores foi dissolvida. Como muitos clientes haviam feito a compra em intermináveis parcelas, e o desaparecimento total do Carnê do Baú só acontecerá no final deste ano – tempo para que todas as parcelas dos carnês comprados sejam pagas.

A direção do Varejo do Grupo Silvio Santos tomou a decisão por causa das mudanças na economia brasileira. A oferta de crédito ao consumidor está bem mais ampla hoje em dia, com possibilidade de muitas parcelas nas compras. A existência do Carnê deixou de fazer sentido. Agora, o objetivo é transformar as Lojas do Baú em uma das maiores redes varejistas de eletrodomésticos e produtos eletrônicos, a exemplo do Ponto Frio e das Casas Bahia. Hoje, são 127 lojas, sendo 99 delas no Paraná.