A cerveja preta Caracu foi lançada em 1899 pelo major Carlos Pinho na cidade de Rio Claro, São Paulo. Ao longo de sua história, a fábrica trocaria de mãos várias vezes. Em 1902, ela foi arrendada para o engenheiro alemão Julio Stern, que a batizou de Cervejaria Rio Claro. Para escapar da falência, em 1930, a fábrica foi comprada pelo empresário italiano Nicolau Scarpa Júnior e, depois de sua morte, ficou para os dois filhos. Em 1992, depois de nova falência, a cervejaria Rio Claro passou a ser controlada pela Ambev. Caracu é o nome de uma raça de touros, forte, desenvolvida no período colonial brasileiro.

A tradição de se colocar ovos na cerveja (qualquer tipo inicialmente) não é brasileira. Remonta, na verdade, ao século XVII e teria se iniciado na Inglaterra. Acreditava-se que a mistura trazia benefícios por ser saudável. Os ingleses colocavam ovos batidos, creme, temperos e açúcar à cerveja para fazer um prato fino, indicado para o tratamento de gripes e resfriados. As pessoas acreditavam que a proteína dos ovos e a cerveja combinados deixavam o corpo mais forte.  (Vale dizer que um ovo cru fornece apenas metade das proteínas de um ovo cozido.)
A receita também era usada para aumentar a libido. A explicação é que os ovos são ricos em zinco, que ajuda na produção de testosterona, enquanto o ferro das cervejas escuras ajuda a aumentar os glóbulos vermelhos.

 

Em “Macbeth” (1611), de William Shakespeare, Lady Macbeth prepara um prato de “posset”, que é mistura de ovo e cerveja, e o usa para dopar os guardas da casa de Duncan.

Durante a Grande Depressão, entre 1929 e 1939, os americanos faziam fila para comprar pão e quebrar ovos na cerveja para obter sua parcela de nutrição para o dia. Ovos e cerveja eram mais facilmente encontradas do que carne. Nas cidades mineiras da Pensilvânia, os bares abriam as portas às 5 da manhã para servir o desjejum dos mineradores: primeiro uma dose de uísque, seguida de um ovo com cerveja. Essa combinação também era chamada de “café da manhã irlandês”.

Demorou a chegar no Brasil. Na década de 1950, trabalhadores braçais começaram a substituir uma refeição por uma garrafa de Caracu. Para isso, a cerveja era batida com um ovo inteiro cru no liquidificador. O ovo de pata era o preferido. Muitas vezes o ovo era batido com a casca e ganhou o apelido de “Caracálcio”. Outra receita tradicional incluía paçoca de amendoim na mistura. Outras cervejas pretas começaram a ser usadas. Hoje em dia, a fórmula não faz o mesmo sucesso porque ovos crus podem causar problemas gastrointestinais (risco de salmonela).

Essa receita se popularizou de tal maneira que a própria cervejaria criou em 1957 um comercial para ensinar os consumidores a fazer a bebida em casa. O jingle usou o gênero cha-cha-cha. O professor Fábio Dias, autor de “Jingle é a alma do negócio“, conta mais detalhes.