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Orânia, a terra dos africâneres

22 de junho de 2010

Orânia é um distrito da cidade de Hopetown, na província do Cabo Norte. Fica a 700 quilômetros de Johanesburgo. Ele tem 20 e poucas ruas e sua população gira em torno de 700 pessoas. O que Orânia tem de especial? A placa na estrada dá a resposta: “Bem-vindo à terra dos africâneres”. Africâneres são descendente dos colonizadores holandeses que vieram para a África do Sul no século 17 e representam hoje apenas 6% dos 50 milhões de habitantes do país. Os africâneres são também os mentores do “apartheid”, regime de segregação racial que dominou o país por quase 40 anos. Por isso, nenhum negro vive em Orânia. O distrito foi criado em 1991 por um grupo de famílias, que comprou fazendas na região às margens do rio Orange (daí o nome que adotaram). Os únicos negros que vi por lá estavam fazendo compras ou abastecendo o carro no supermercado e no posto de gasolina que ficam na estrada que corta o local.

Quem me recebeu para a visita à Orânia foi o ex-médico John Strydom. Ele vive lá há quatro anos e tem uma fazenda de nozes, principal atividade agrícola do lugar. “Tecnicamente não impedimos de os negros morarem aqui, mas acho que eles não se sentiriam bem, como eu  também não me sentiria bem no Soweto”, disse na entrevista. Strydom tem um frase na ponta da língua para falar de Nelson Mandela: “Era o homem certo na hora certa”. Mas Orânia tem um museu dedicado a Hendrick Verwoerd, o primeiro-ministro que mandou prender Mandela, com direito a um gigantesco busto.

Strydom diz não há racismo em Orânia, criada apenas para preservar a cultura africâner, cada vez menos ensinada nas escolas. Nas escolas da África do Sul, a primeira língua é o inglês. As duas escolas de  Orânia ensinam tudo em africâner.
A FM Orânia é a única rádio que pode ser ouvida ali. A programação ao vivo acontece das 17h às 22h, e depois é repetida ao longo do dia. O próprio Strydom tem um programa de 15 minutos aos domingos, que fala sobre falecimentos. A rádio não fala quase nada sobre Copa do Mundo. O esporte preferido dos africâneres é o rúgbi. Na África do Sul, o futebol sempre foi considerado o esporte dos negros. Os jovens de Orânia estão acompanhando as partidas do Mundial pela TV ou pela internet. Mas riem quando se referem ao futebol apresentado pelos Bafana-Bafana comparado aos Springbooks, a seleção de rúgbi campeão mundial de 1995 e que foi tema do filme “Invictus”.
Orânia tem uma bandeira – o garoto arregaçando as mangas significa que eles vão prosperar com seu próprio trabalho. Há também uma moeda que circula por lá, chamada “ora”. Ela não é oficial e tem o mesmo valor do rand sul-africano. Tem também um escritório de turismo, que vende uma série de produtos. Durante toda a visita, não vi uma única bandeira sul-africana por lá.

Para ver a reportagem  que fiz em Orânia para a ESPN-Brasil, clique aqui. Ah, veja o detalhe do produto que comprei no supermercado de lá!

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4 Comentários

4 Comentários

  1. Antonio Mier

    …e “tecnicamente” falando, nesse pedaço da África o “apartheid” ainda não acabou…

    Responder
  2. Antonio Mier

    …e “tecnicamente” falando, nesse pedaço da África o “apartheid” ainda não acabou…

    Responder
  3. João

    Acho válida a iniciativa deles. Ao invés de estarem matando uns aos outros em busca da independência, estão quietinhos no seu próprio pedaço de terra, num estilo de vida altamente sustentável e sem fazer mal a ninguém… se todos os povos que desejam a independência começassem desse jeito, o mundo seria um lugar bem mais tranquilo

    Responder
  4. João

    Acho válida a iniciativa deles. Ao invés de estarem matando uns aos outros em busca da independência, estão quietinhos no seu próprio pedaço de terra, num estilo de vida altamente sustentável e sem fazer mal a ninguém… se todos os povos que desejam a independência começassem desse jeito, o mundo seria um lugar bem mais tranquilo

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