Jogávamos bola numa rua sem saída. Um belo dia, resolvemos criar um time, que foi batizado de Teodoro Sampaio Esporte Clube.  Teodoro Sampaio é o nome de uma das principais ruas do bairro de Pinheiros, em São Paulo, onde todos morávamos. Fizemos uma rifa para comprar as camisas.  O time ficou alviverde porque o presidente do time, Paulo Tadeu, era palmeirense. Decidimos criar um jornalzinho, batizado de “Boletim Esportivo Mensal”. O número 1 saiu no dia 26 de novembro de 1977. Tinha uma única página  mimeografada. O jornalzinho foi crescendo de tamanho e as reportagens passaram até a incluir entrevistas com jogadores, à base de muita persistência. Em 1979, fizemos uma votação entre os leitores para escolher o melhor jogador do Campeonato Paulista. Ganhou o corintiano Sócrates. Entramos com um pedido na Federação Paulista de Futebol e – algo imaginável nos dias de hoje – recebemos credenciais para entrar em campo em 27 de janeiro de 1980, data da primeira partida da semifinal entre Corinthians e Palmeiras.  Escoltados por um fiscal, entregamos um troféu com não mais de 15 centímetros a Sócrates. Um troféu baratinho, que havia sido comprado na loja Sport Spada, também na Teodoro Sampaio. A emoção do fotógrafo que nos acompanhou foi tão grande que o único registro que ficou daquele dia é esta foto.

A foto saiu impublicável. Nós nem sonhávamos ainda com câmeras digitais naquele tempo. Só fomos ver a tragédia quando revelamos o filme Kodak de 24 poses. O que fazer? Alguns dias depois, fomos até o Parque São Jorge levando uma camisa do TSEC.  E, atencioso como sempre, Sócrates – algo também inimaginável nos dias de hoje – vestiu a camisa verde e branca para uma foto que ilustrou as páginas – agora xerocadas – do nosso jornalzinho.

E não demos trégua ao “Doutor”. Descobrimos que ele morava num prédio da Rua João Moura, também travessa da Teodoro Sampaio. Fomos a pé até lá. O porteiro disse que ele tinha saído a pé. Ficamos de plantão na porta. Meia hora depois, Sócrates apareceu com duas garrafas de cerveja nas mãos. Pedimos a entrevista e ele nos atendeu no salão de festas do prédio. Atendeu dois meninos de 15 anos como se fôssemos profissionais da imprensa.
O Boletim Esportivo Mensal foi a sementinha do meu desejo de ser jornalista esportivo. Comecei a mandar cartas e mais cartas para a redação da revista Placar. Era lá que eu queria trabalhar. Meu primeiro texto na revista – uma ficção sobre um jogo entre celebridades nacionais e estrangeiras –  foi publicado em 6 de janeiro de 1984. A edição especial de fim-de-ano tinha Sócrates na capa e mais Hortência (basquete), William e Isabel (vôlei). Eu seria contratado pela Placar três meses depois.
Obrigado, Sócrates, por tornar realidade um sonho de menino! Descanse em paz!