CORRIDA DE SÃO SILVESTREA tradicional Corrida de São Silvestre, realizada todos os anos no dia 31 de dezembro, causou revolta em muitos dos participantes da edição de 2016. Por falhas na organização da prova, os atletas não encontraram ao longo dos 15 quilômetros de percurso os postos de reidratação prometidos no regulamento e exigidos pelas normas internacionais do esporte. “Em uma prova dessa distância, deveriam ser pelo menos cinco postos”, afirma o jornalista Antonio Mukmicka, de 52 anos, que tem 20 anos de experiência em provas de triatlo e em maratonas e correu pela primeira vez a São Silvestre.

Ele garante que jamais havia passado por uma situação tão desconfortável em outra oportunidade: “Pagamos 160 reais pela inscrição e não tínhamos água para beber. Isso colocou em risco a saúde e a segurança dos atletas. Por sorte ninguém morreu porque correr uma distância dessas, sob um forte calor, e sem a hidratação adequada é um risco enorme”, denuncia. O doutor Nabil Ghorayeb, especialista em medicina do esporte, não vê nenhum exagero na afirmação: “A desidratação é um dos grandes problemas das corridas de longa duração, ainda mais quando são realizadas sob sol a pino. O corpo que não repõe líquido sofre com a perda dos eletrólitos do sangue, que são o sódio, o potássio e o cloro. As consequências possíveis são a hipertermia (temperatura hiperelevada do corpo) e a hiponatremia (falta ou excesso de determinados nutrientes), que podem parar o funcionamento dos rins ou gerar quedas de pressão e arritmias cardíacas”, explica, confirmando que houve sim um risco à vida dos competidores.

Agora que o pior já passou, Antonio e os demais corredores pretendem tomar providências contra os organizadores: “A nossa primeira reação é achar que só aconteceu com a gente. Mas quando você termina a prova e ouve várias pessoas falando a mesma coisa, é porque alguma coisa saiu errado”, afirma Mukmicka. Por isso, ele teve a ideia de criar um grupo no Facebook para reunir os corredores descontentes. Criado na segunda-feira (2), o “SÃO SILVESTRE CORRIDA DESORGANIZADA” já reúne quase 200 pessoas e vários relatos semelhantes ao do criador.

Os atletas também reclamaram da ausência do “staff” da Corrida de São Silvestre: não havia nenhum profissional à disposição para ajudar os que procuraram ajuda. Neste ano, o valor da inscrição sofreu um reajuste de 10,67% (de R$ 145 para R$ 160), levemente acima da inflação anual de 10,34%. Não foi o suficiente para evitar os problemas com a hidratação, que já haviam sido relatados por competidores, em menor escala, em anos anteriores. O objetivo do grupo é pressionar os organizadores através dos canais oficiais para que haja pelo menos um pedido formal de desculpas.

No site Reclame Aqui, uma atleta de São Caetano do Sul (SP) fez críticas severas à falta de água e classificou como “vergonhoso” o kit pós-prova, que, segundo o relato, tinha apenas uma barra de cereal “dura e seca”, sem frutas ou isotônicos. Ela afirma ainda que uma pessoa da sua equipe passou mal ao final da prova: “Provavelmente  o organizador nunca colocou um tênis no pé”, aposta. Em sua resposta, a Yescom, empresa especializada em eventos como esse e que organiza a Corrida de São Silvestre, afirma ter preparado 540 mil copos de água, o que dá uma média de 18 copos por pessoa, “muito além da norma desportiva”. A empresa culpou os “pipocas”, como são conhecidos os corredores não inscritos que participam da prova apenas pela festa, pelos problemas. Para a Yescom, o fato de 35% do total de participantes pertencerem à popular “turma da farra” surpreendeu a organização e “interferiu nos serviços essenciais”. A resposta alega ainda que esses corredores tiveram uma postura “anti-ética” e desrespeitaram os “verdadeiros corredores”, sem dar maiores detalhes sobre o que exatamente foi classificado como anti-ético.

Mukmicka contesta. “Esse pessoal está na São Silvestre a vida inteira. Além do mais, se o problema é esse, o ideal seria fazer a largada desse grupo e a dos atletas normais com um espaço de tempo muito maior. Assim não precisariam abastecer todo mundo ao mesmo tempo”, reclama. Para o doutor Nabil Ghorayeb, embora a “turma da farra” não tenha um ritmo tão forte quanto os demais, eles merecem atenção redobrada quanto a reidratação, já que muitas vezes correm com fantasias quentes e pesadas, que absorvem mais color e elevam ainda mais a temperatura corporal.

No Facebook, um corredor publicou a foto de um caminhão da organização parado com centenas de garrafas de água lacradas. Em teoria, seriam essas as garrafas que deveriam ter chego aos corredores, o que refutaria a tese de que não havia estoque suficiente para isso. Relatos de kits pós-prova com produtos vencidos e histórias de corredores que desviaram a rota para comprar água e isotônico em postos de gasolina também chamam atenção: “É importante que o corredor não esteja hidratado apenas com água. O que repõe os eletrólitos é o isotônico. Inclusive, beber muita água ou beber água quente pode provocar ânsia de vômito. Por isso alguns preferem jogar água gelada na cabeça para refrescar o corpo, o que realmente funciona. O importante é não limitar o processo de reidratação à água. É preciso lembrar também do isotônico”, alerta o doutor Nabil.

Antonio Mukmicka não acredita na possibilidade de boicote à prova, mas admite que ele e muitos outros corredores podem tomar medidas judiciais para que haja uma compensação pelos danos causados à saúde dos atletas. O que ele, que veio de Sorocaba (SP) para correr, já sabe é que não estará na Avenida Paulista no dia 31 de dezembro de 2017: “Não tenho mais a menor vontade de correr a São Silvestre e nem recomendo para ninguém que queira participar de uma prova séria. Se você quer ir para uma festa, aí tudo bem”, critica. Procurada pela reportagem, a Yescom não respondeu. A Fundação Cásper Líbero, que promove a Corrida de São Silvestre, alegou não ter competência para comentar o assunto e que todas as perguntas ou reclamações devem ser tratadas diretamente com a Yescom.

Atualizado em 6/1/2017, às 16:40: em resposta à reportagem, a Yescom copiou o texto escrito no “Reclame Aqui” e prestou novos esclarecimentos. A empresa sustenta que a culpa foi dos “pipocas”, alegando que “o atleta “pipoca” prejudica o atleta oficialmente inscrito e interfere na distribuição de água e serviços essenciais. Ele sempre se protege por trás da famosa frase que “a via pública” e se todo serviço disponível tiver que ser previsto para os “pipocas” também, jamais haverá regras, limites e ordem”. Além disso, a Yescom afirmou que “por imagens de assessorias esportivas, verificamos grupos com mais de 40 pessoas, todas correndo sem número e declaradamente correndo sem inscrição e estimulando a pratica do corredor “pipoca””.

A empresa esclareceu ainda que os valores da inscrição são pagos para a Fundação Cásper Líbero, que define também o número de participantes. Quanto aos kits, a Yescom se esquivou e transferiu a responsabilidade para a Camil, que promoveu a ação de entrega dos brindes. A Yescom reconhece que foram identificados produtos vencidos, mas afirma que está tomando as medidas necessárias para a reparação do erro e que a Camil está atendendo aos consumidores insatisfeitos em seu SAC.