JOGO DE BOTÃONa era dos videogames, é cada vez mais difícil convencer um menino a se interessar por futebol de mesa – carinhosamente chamado também de futebol de botão. Estou me esforçando para o meu filho mais novo, Antonio, gostar um pouquinho de futebol de botão. Estamos jogando (do jeito dele) numa mesa que foi do meu mais velho – e que, ultimamente, só decorava o quarto.

O futebol de botão foi mania nacional durante os anos 1970 e 1980. A modalidade surgiu na década de 1930. Foi criada pelo brasileiro Geraldo Décourt, que batizou a novidade de “Celotex” – material usado para fazer os jogadores. Na minha infância e adolescência, cheguei a ter quase 100 times de diferentes marcas. Você se lembra de qual era a sua marca preferida?

O Blog do Curioso resolveu contar a história de alguns das principais fabricantes do brinquedo em São Paulo. Tive a ajuda do colecionador Cláudio Ferrari. Ele ganhou o primeiro time – um Palmeiras da marca Canindé – aos 5 anos. Hoje, Cláudio tem 800 clubes de marcas antigas. Também fabrica botões personalizados que podem ser comprados por 35 reais no site BFA Store. Veja o que descobrimos sobre as empresas:

Brianezi

A loja da Brianezi ficava na avenida Álvaro Ramos, 900, no bairro paulistano do Belém. Aconteciam ali campeonatos bastante disputados. Em 1987, a empresa tinha em catálogo 245 times (130 brasileiros, 45 de seleções nacionais e 70 de equipes de outros 23 países). Apesar de tanta variedade, Flamengo e Corinthians correspondiam a 30% das vendas. As peças produzidas pela Brianezi eram conhecidas como “botões de tampa”, porque eram feitas de celulóide (material usado em tampas de relógios antigos). Em 1986, a Brianezi passou a fabricá-los em tamanho um pouco menor e em outro material.

O criador da marca, Paulo Brianezi, era apaixonado por botão. Nos anos 1960, ele começou a confeccionar as peças nos fundos da loja. As caixinhas e a venda em lojas de material esportivo e magazines teve início em 1972. Foi criado até o Grêmio Recreativo Brianezi, para que os fãs de botão se reunissem para jogar. A mensalidade dos membros era revertida para a AACD (Associação de Assistência à Criança Deficiente). Paulo morreu em 1978 e o negócio passou para as mãos do filho, Lúcio Brianezi.

O negócio sofreu um grande abalo quando os clubes passaram a exigir o pagamento de royalties pelo uso dos escudos. A Brianezi foi alvo de uma ação milionária do Clube dos 13. Com a produção de clubes brasileiros parada, o faturamento da empresa despencou. Um diretor do Palmeiras sugeriu que eles voltassem a fazer botões com o escudo do time, que ficaria com 7% do faturamento. A ideia durou um ano, mas logo se mostrou ineficaz, porque as crianças também queriam botões dos times rivais. A empresa parou de fabricar botões em 2002.

Em 2020, o empresário Alexandre Badolato fechou uma parceria com Lúcio Brianezi e relançou a marca de botões.

Canindé

Existiu durante os anos 80 e tinha fábrica na Vila Ema, Zona Leste de São Paulo. Os botões, que eram um pouco menores que os outros do mercado, vinham em uma caixinha amarela quadrada. Cláudio afirma que era uma das marcas mais baratas que existiam na época. Só fabricava times nacionais e se destacava por produzir uma variedade muito grande de clubes. Entre os 37 times da Canindé da coleção de Cláudio estão Caldense-MG, Uberaba-MG e Colorado-PR (que se juntou ao Pinheiros para formar o Paraná Clube).

Champion

Foi lançada no final dos anos 80 e durou até a década seguinte. O diferencial era que os botões não tinham cores – eram todos transparentes com o símbolo do clube colado por baixo. Cláudio tem 32 times da marca em sua coleção. Um deles é a Seleção Argentina, com a qual ele venceu quatro Copas do Mundo organizadas com um grupo de 12 amigos.

Craks da Pelota

Criada em meados da década de 1970, a Craks tinha loja na rua 24 de maio, no centro de São Paulo. Os fundadores eram Guilherme Biscasse e Antônio Carlos Bernardo. Biscasse acabou comprando a parte do sócio e tocando o negócio sozinho. O botão era no estilo “tampa de relógio”.

A fábrica ficava num galpão da Rua Costa Aguiar, no Ipiranga. Tinha cerca de 30 funcionários. “Eu me lembro de visitar a empresa um dia e os funcionários estarem fazendo um amigo secreto, era bastante gente”, diz Lennon Biscasse, filho de um dos fundadores.

O negócio começou a ter problemas quando os grandes clubes passaram a exigir o pagamento de royalties pelo uso dos distintivos . “Eles pediam mais do que a empresa podia pagar”, conta Lennon. A fábrica mudou para a Mooca e depois foi vendida. Hoje, os filhos de Guilherme Biscasse mantêm a marca Ki-Gol, também no estilo “tampa de relógio”.

Estrela

A Brinquedos Estrela fabricou peças de futebol de botão de 1948 a 1979. Entre os anos de 1972 e 1985, ela fabricou o Estrelão, um dos campos (“mesa”) de futebol de botão mais famosos de todos os tempos. Toda criança tinha um. Bem, pelo menos, eu tinha…

A empresa tinha acordos com os times de futebol que permitiam o uso de seus escudos. No entanto, a partir da década de 1990, a relação azedou. De acordo com a assessoria de imprensa da Estrela, “as administrações eram (eram???) amadoras e, quando havia mudanças nas presidências dos clubes, os novos dirigentes não cumpriam os contratos anteriores”. A Estrela desistiu de  trabalhar com produtos licenciados.

Gulliver

Em 1959, o espanhol Mariano Lavin Ortiz chegou ao Brasil com seus filhos. Eles fundaram a Gulliver Manufatura de Brinquedos dez anos depois. O nome foi escolhido porque, na infância, Ortiz adorava a história “As Viagens de Gulliver”.

Com quarenta décadas, a empresa foi responsável por brinquedos clássicos, como as pelúcias da Família Peposo, os Agarradinhos e o Forte Apache. Começaram a fazer botões na década de 1970. Em 1977, começaram a estampar o rosto dos jogadores e pararam por volta de 1980.

Em 1986, a empresa vendeu 150 mil equipes! Um atrativo era o preço mais baixo. Enquanto um Brianezi custava na época 140 cruzados, um time da Gulliver saía por quatro vezes menos. Os botões Gulliver são produzidos até hoje.

Jofer

Nos anos 60, a Jofer, que ficava na cidade de Guarulhos (SP), lançou uma coleção de onze times de mesa: cinco clubes do Rio de Janeiro, cinco de São Paulo e a Seleção Brasileira de 1962. Cláudio tem as onze. Ele encontrou a relíquia na Feira de Antiguidades do MASP, em 1998. Pagou R$ 2 mil e levou os times para casa. Os botões da marca têm uma espécie de suporte para encaixar os símbolos dos clubes embaixo das tampas transparentes. Todos levam a impressão “Jofer – Ind. Bras”. Ela deixou de existir na década de 1990.

Sportec

Teve vida curta nos anos 80. Cláudio conta que os botões dessa marca são mais difíceis de conseguir. “A qualidade é excelente, mas esse produto nunca foi divulgado”, conta ele. O diferencial da Sportec era que o próprio cliente decorava seu time. Os botões vinham os adesivos da faixa, símbolo do clube e do número, e o jogador era quem colava tudo no lugar certo e ainda pintava a tampa. Cláudio possui 12 times dessa marca.

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