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Publicidade: quais foram as 10 reclamações mais curiosas recebidas pelo Conar em 2016

29 de novembro de 2016

Em junho deste ano, a cantora gospel Ana Paula Valadão foi protagonista de uma polêmica que correu o país: ela fez uma postagem no Instagram manifestando sua “#SantaIndignação” contra o filme publicitário de Dia dos Namorados da C&A – a campanha “Dia dos Misturados” mostrava homens vestidos com roupas femininas e mulheres vestidas com roupas masculinas. Com hashtags como “#HomemVesteComoHomem” e “#NãoÀIdeologiadeGênero”, ela pediu um boicote dos fãs à marca. Apesar da péssima repercussão da mensagem, a cantora recebeu o apoio de muitas outras pessoas e o caso foi parar no Conar (Conselho Nacional de Autorregulamentação Publicitária). Por unanimidade, o conselho arquivou a representação, alegando que a campanha não infringiu nenhum valor moral, mas sim fez valer o direito à liberdade de expressão.

Até setembro deste ano, o Conar julgou outras 195 denúncias como essa, a maioria a partir dos próprios consumidores. Em agosto, houve uma da ação contra a propaganda da Sadia, onde um presunto (de uma marca mostrada na peça como inferior) era chamado de “Luís Augusto”. Muitos “xarás” do embutido se sentiram ofendidos. Mas o órgão também arquivou a denúncia, dizendo que não houve desrespeito e que muitos consumidores chamados Luís Augusto manifestaram-se positivamente nas redes sociais. Além das denúncias enviadas pelos consumidores, o Conar recebe ações que partem de outras empresas e agências, e também de seus próprios conselheiros.

A lista completa das mais de 8 mil representações tomadas desde 1978 pode ser acessada no site do órgão na seção “Decisões”. Separamos as 10 queixas mais insólitas recebidas pelo Conselho em 2016.

1. Não é nenhuma novidade que as marcas de café usem o aroma do produto como atrativo em suas peças publicitárias. No entanto, uma consumidora de Itajubá (MG) acionou o Conar em fevereiro por conta de um anúncio na TV em que o café era associado à sensualidade: “Quando o sinto o seu cheiro, fico louco de prazer e dá vontade de te possuir”, dizia a narração. O conteúdo em si não foi a causa da reclamação. O problema é que a marca se chama Café Padre Victor, em referência a um dos sacerdotes mais famosos do sul de Minas, o que a consumidora considerou um desrespeito. Apesar de reconhecer a ambiguidade, o Conar arquivou a denúncia porque não havia na propaganda nenhuma imagem religiosa ou mesmo de qualquer pessoa – apenas as embalagens eram mostradas.

2. O Banco Itaú foi alvo de cerca de trinta reclamações no Conar por causa do neologismo “Digitaú”, formado a partir das palavras “Digital” e “Itaú”. O termo foi o mote da campanha criada pela agência África para anunciar a plataforma digital do banco. As reclamações eram justificadas sob a alegação de que a ênfase na grafia do “Digitaú” poderia confundir as crianças e as induzir ao erro. O caso foi julgado e arquivado em março, justamente por considerar comum o uso de neologismos na publicidade. De todo o modo, o banco fez um novo comercial, explicando as diferenças entre “digital” e “digitaú”.

Itaú: grafia errada da palavra poderia confundir as crianças

3. Um dos maiores memes da internet em 2013 serviu de base para uma recente campanha da Nissan na internet. Para anunciar um novo modelo, a montadora usou vários vídeos de anônimos em situações constrangedoras que “viralizaram” na internet. Dentre eles, o da menina Giovanna, que é filmada pela mãe dançando funk até acidentalmente derrubar em cima dela mesma um forno micro-ondas. “Segura o forninho” virou uma frase conhecida por quase todo mundo, mas isso não aliviou a barra da agência Lew’Lara/TBWA. Pelo menos não para um consumidor de São José do Rio Preto (SP), que não gostou nada de ver uma criança fazendo movimentos considerados por ele como sensuais. A argumentação da agência de que se tratava de um meme sem nenhuma maldade não convenceu o relator Licínio Motta, que, acompanhado pela maioria dos juízes, solicitou a alteração do conteúdo do filme em maio deste ano.

4. Associar a venda de ovos de chocolate ao coelho no período da Páscoa parece algo absolutamente natural, certo? Errado. Quatro consumidores das cidades de Votorantim (SP) e São Paulo moveram ação no Conar contra a Lacta por causa de sua campanha para a Páscoa desse ano – “Você faz a magia acontecer”. O motivo da queixa foi a representação dócil e amável de um coelho de verdade que, segundo esses consumidores, “se trata de um roedor que pode morder e arranhar quem dele se aproxima”. Assim, eles consideraram que a campanha poderia induzir crianças de pouca idade e se aproximar perigosamente do animal. O caso foi arquivado por unanimidade já que os juízes consideraram evidente o caráter fantasioso da peça.

Lacta: crianças poderiam se aproximar perigosamente de coelhos

5. Em um anúncio de TV, a Uninove destacava em sua infraestrutura o acesso à rede wi-fi para todos os alunos. Uma estudante de Carapicuíba (SP), porém, não estava satisfeita com a conexão e decidiu se queixar contra o que ela considerou uma propaganda enganosa da universidade. O problema é que a defesa da faculdade conseguiu comprovar que a conexão estava, sim, disponível. E mais: os dados do sistema mostraram que a própria denunciante fez uso da rede. Diante de tudo isso, ficou fácil arquivar a representação.

6. Uma consumidora de São José do Rio Preto (SP) ficou bastante atenta aos benefícios anunciados na propaganda do absorvente da P&G. Entre as várias ações quase impossíveis que o produto em tese permite realizar, estava entrar em um trem já partindo. A atriz corre, se estica, chega a ser levemente prensada pela porta, mas entra. Um exemplo extremamente perigoso na visão dessa consumidora. A relatora Ana Paula Cherubini dos Santos, no entanto, entendeu que se tratava de uma peça ficcional e que não induziu ninguém a sair pulando em trens em movimento por aí.

7. A peça publicitária do serviço de TV por assinatura da GVT mostrava, em determinado momento, um menino ganhando uma tartaruga de presente dos pais. Foi o suficiente para que um telespectador de Mesquita (RJ) e outro de Belo Horizonte se manifestassem, em movimento que seria repetido por várias outras pessoas nos dias seguintes. A queixa era uma só: o incentivo à compra de animais silvestres, que muitas vezes são contrabandeados. No entanto, bastou a Agência África lembrar que há uma regulamentação para compra e venda de animais silvestres no Brasil para que a representação fosse arquivada.

GVT: incentivo à compra de animais silvestres

8. O Motel Le Piège, de Curitiba, usou o livro best-seller “50 tons de cinza” para divulgar os seus serviços em um outdoor. Uma transeunte ficou chocada com o que classificou ser uma ultrapassagem aos “limites da decência” e resolveu acionar o Conar. Contudo, o conselho considerou o outdoor dentro da “decência prevalecente em nosso tempo”.

9. A propaganda do aplicativo iFood com o humorista Fábio Porchat também foi motivo de reclamação. A “vingança” para cima da telefonista Judith, personagem de uma esquete do canal Porta dos Fundos, foi considerada por um consumidor de Florianópolis como um incentivo aos trotes ilegais. O relator considerou que o caráter cômico ficou evidente e, portanto, não havia motivo para alterar o conteúdo da peça.

Aplicativo iFood: incentivo aos trotes ilegais

10. A impressionante redução de peso do humorista Leandro Hassum virou piada na propaganda dos Cimentos Votorantim. Quando perguntado sobre o que tinha provocado tamanho emagrecimento, ele respondia: “ah, cortei o glúten”. Uma consumidora paulistana entendeu a ironia como prejudicial ao consumidor. Ela não aceitou a omissão do fato de que, na vida real, Hassum fez uma cirurgia bariátrica. O Conar reconheceu um óbvio e evidente exagero na propaganda, que estava nitidamente fazendo uma brincadeira. Assim, a defesa da agência E21, criadora da propaganda, foi aceita por unanimidade.

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