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Balas de borracha não são feitas de borracha

15 de junho de 2020

As balas de borracha foram usadas pela primeira vez pelo exército britânico em 1970 durante o conflito etnonacionalista “The Trouble” (O Problema), na Irlanda do Norte.  O projétil de borracha duro, de 15 centímetros, parecia um pequeno míssil e tinha o nome de “L2A2”.  As balas de borracha eram rotuladas na época como “armas não-letais” e deveriam ser usadas apenas para controlar “uma multidão extremamente perigosa”. O protocolo mandava atirá-las contra o chão, fazendo com que ricocheteassem nas pernas dos manifestantes, que então se dispersariam. Ao longo de quatro anos, 55 mil balas de borracha foram disparadas e não se mostraram nada inofensivas. Ao final do conflito, 17 pessoas (incluindo oito crianças entre 10 e 15 anos) morreram por causa de ferimentos causados por elas. 

Documentos encontrados no Arquivo Nacional inglês mostraram que o Ministério da Defesa sabia que as balas de borracha eram capazes de mutilar e até matar, publicou recentemente o jornal inglês “The Guardian”. Um fotógrafo em Minneapolis, Estados Unidos, acabou ficando cego de um olho durante uma manifestação antirracial no final de semana passado por causa de uma bala de borracha, segundo noticiou a emissora NBC News. Elas começaram a ser usadas nos Estados Unidos em 1992. Três policiais foram absolvidos do brutal espancamento do operário negro Rodney King, que dirigia alcoolizado. O Departamento de Polícia de Los Angeles adotou balas de borracha para dispersar os protestos que vieram depois disso, no final de abril daquele ano. Um relatório, que analisou o impacto das balas de borracha entre 1990 e 2017, constatou que 3% das pessoas atingidas morreram e ¾ das pessoas ficaram com ferimentos graves.

Para atingir o alvo devagar, mas com força

A exemplo das caixas-pretas dos aviões que não são pretas, as balas de borracha raramente são de borracha. Algumas têm um núcleo de metal, como as balas convencionais, mais uma camada de revestimento de polímero. Há outras feitas completamente de espuma ou plástico endurecido. São maiores (podem ter o tamanho da palma da mão) e menos aerodinâmicas. A maioria é disparada de lançadores de granadas, embora existam balas de borracha para espingardas, rifles e pistolas (afinal, elas foram projetadas para caber dentro das armas de fogo existentes). Carregadas com menos pólvora, as armas disparam aproximadamente à velocidade de uma bala normal, destinada a atingir o alvo devagar, mas com força.

Diante desse quadro, as balas de borracha perderam o rótulo de “armas não-letais” e passaram a ser chamadas de “armas de baixa letalidade”. As balas de madeira, criadas em Cingapura na década de 1880, foram uma das primeiras “armas de baixa letalidade”. Policiais carregavam pedaços de cabos de vassoura serrados em suas armas, em vez de munição normal, atirando contra manifestantes para feri-los, mas não matá-los. Na década de 1960, as forças britânicas coloniais dispararam balas de madeira em Hong Kong, tentando controlar a onda de greves, protestos e motins em apoio à China comunista. As balas dos ingleses eram feitas de madeira de teca, uma das mais rígidas e resistentes que existem. 

Armas de “baixa letalidade”

Outras “armas de baixa letalidade” foram desenvolvidas a partir daí. Fã de “Star Trek”, o americano Tom Smith se inspirou num gadget da série para criar em 1993 o “taser”, uma arma de eletrochoque que também acabaria causando mortes. Dois anos depois, o oficial do exército David Lyon criou a chamada granada de esponja. Parece quase um brinquedo, mas também tem um núcleo rígido de metal e é disparada de um lançador de granadas para imobilizar alvos (há relatos também de morte de pessoas).

A mais recente foi desenvolvida pela empresa Wrap Techonologies, criada há apenas quatro anos no Arizona, Estados Unidos. Chama-se bolawrap, inspirada nas boleadeiras dos pampas argentinos. Trata-se de uma corda com dois pesos nas extremidades, que devem envolver as pernas de uma pessoa para sua imobilização sem causar dor.

Na semana passada, o Parlamento escocês pediu ao governo do Reino Unido a suspensão imediata das exportações de equipamentos antimotim, gás lacrimogêneo e balas de borracha para os Estados Unidos, em razão da resposta truculenta da polícia americana aos protestos em andamento do movimento “Vidas Negras Importam”. 

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