O comércio de bebidas é completamente dependente da invenção de um item ao qual — salvo os colecionadores — não se dá muita importância: tampinhas de garrafa. Esse objeto simplório, inventado há pouco mais de um século, foi a razão dos amados refrigerantes finalmente poderem ser vendidos e levados para casa.

Tudo começou com um cientista de origem alemã chamado Johann Jacob Schweppe, responsável por criar o primeiro produto que precisaria de uma tampinha para ser bem conservado. Depois de se mudar para a Inglaterra, ele desenvolveu a primeira bebida gaseificada para uso comercial, que começou a ser vendida no país em 1782. Mas John Pemberton, criador do líquido que se tornaria o mais famoso do mercado, só faria uso da técnica de carbonatação desenvolvida por Schweppe quase um século depois, em 1860. A Coca-Cola, comercializada inicialmente como um elixir, era praticamente intragável até ser gaseificada.

Antes que fosse encontrado um método eficiente de reter o gás, só existia uma forma de consumir esse tipo de bebida: as drinking fountains, aquelas máquinas de refil que servem refrigerantes e cervejas. A ideia era que os refrigerantes fossem tomados apenas em restaurantes e lugares públicos. No começo, Pemberton tentou usar garrafas com tampas de porcelana, mas logo desistiu devido ao preço e à ineficiência do material.

Foi apenas com a ajuda do engenheiro William Penter que a primeira tampinha foi criada. Ela era composta de uma chapa de aço revestida com um outro tipo de metal, geralmente estanho, que recebia um acabamento de verniz. Era aplicado do lado interno da cápsula um produto colante e um pequeno disco de cortiça que funcionava como rolha selante. O disco era fundamental porque impedia o contato entre o metal e o líquido, que poderia levar a reações de oxidação capazes de alterar o gosto da bebida. A cortiça era o produto mais inerte em termos de gosto e, ao contrário da porcelana, tinha um bom nível de resiliência. O item logo foi adotado no mercado de refrigerantes, mas só seria incorporada ao mundo cervejeiro alguns anos mais tarde.

No Brasil, a história é um pouco diferente: no começo do século XX, as tampinhas ainda não haviam chegado, e as garrafas eram vedadas com rolhas de cortiça e até mesmo sabugos de milho, que geravam um risco altíssimo de contaminação. Por um período, a mesma tampa de porcelana de Pemberton foi utilizada para vedar algumas cervejas, que ganhariam a alcunha de “cervejas marca de barbante”. Os refrigerantes chegariam só mais tarde, na década de 30, já com tampinhas metálicas.

A anatomia de uma tampinha

Ao longo do tempo, algumas coisas mudaram: foram criadas máquinas para acelerar e maximizar a confecção de tampinhas (atualmente, as melhores são capazes de produzir quase cinco mil por minuto) e os materiais usados evoluíram. O básico, no entanto, permaneceu: todas as tampinhas possuem 21 dentes, responsáveis por distribuir igualmente a força empregada para retirá-las. Olhando de perto, é muito similar a uma pequena engrenagem.

Devido à sua proximidade a líquidos consumíveis, a produção das rolhas metálicas se tornou muito mais regulada com o passar das décadas. Hoje, os materiais utilizados — seja o metal que reveste a tampinha, o verniz que a finaliza ou a substância colante — precisam ser aprovados pelos órgãos de saúde pública de um país, como o Instituto Adolf Lutz, no Brasil, e a Food and Drugs Association (FDA), nos Estados Unidos.
Hoje, o aumento da capacidade das máquinas destinadas à produção de tampinhas criou um desafio inesperado, mas grave: os pequenos e médios produtores de bebida têm dificuldade para encontrar fábricas dispostas a fornecer rolhas, dada a escala de sua produção. Nos últimos anos, o negócio de cerveja artesanal e de kombucha (um tipo de bebida fermentada gaseificada de forma natural) têm crescido no Brasil, com o primeiro chegando a ocupar 5% do mercado. Companhias antigas no ramo das embalagens, como a carioca Amorim Pinto, que completou um século de existência no ano passado, têm se voltado para a busca de soluções comerciais para esses clientes.