Praticada desde o século XIX no país, a olivicultura só tem dado alegria aos produtores brasileiros. O cultivo de azeitonas e a produção de azeite atingiu um patamar elevado no final da década passada e aponta para um crescimento ainda maior nos próximos anos. A produção estimada para 2017 deve se aproximar dos 100 mil litros de azeite, o que representa um aumento de quase 1.000% em relação a 2016. Apesar de inúmeros motivos para comemorar, a falta de estudos aprofundados sobre o tema limita o alcance da atividade. Pensando nisso, a advogada Glenda Haas, especializada em Direito Econômico, quer ajudar a revolucionar a área. Ela estuda a olivicultura desde 2013. Fez cursos na Europa e nos Estados Unidos, visitou recentemente um olival na Grécia e agora pretende modernizar a atividade no país: “O nosso azeite tem muita qualidade, mas existe pouca pesquisa por parte dos produtores. Nosso objetivo é difundir conhecimento sobre o azeite de oliva extra virgem no Brasil entre quem produz e quem consome”, conta. Para isso, ela se uniu a João Alexandre Motta e Paula Becker na criação da Olivoteca, um projeto que promete azeitar o diálogo entre todos que fazem parte dessa cadeia.

AZEITOTECAA produção de azeites em larga escala é um fenômeno recente no país: “É um negócio que ainda não tem dez anos”, diz Carlos Diniz, presidente da Assoolive (Associação dos Olivocultores dos Contrafortes da Manthiqueira).  Parte dos produtores entrou no ramo quase por acaso e, por isso, ainda não domina completamente o assunto. É o caso da psicóloga Silvia Marques, que herdou o Sítio Águas Claras do pai na região da Serra da Mantiqueira: “Estava procurando alguma atividade para o local e, vendo uma reportagem sobre olivicultura, me interessei. Como é algo novo, nem nós, produtores, sabemos tudo”, afirma. O empresário Joaquim Jerônimo também aponta como essencial o conhecimento sobre a terra: “Contratei bons agrônomos, que sabem como trabalhar o solo”, relata. Dono do Kanguru Supermercado na zona Leste de São Paulo, ele tem 3 mil pés de oliveiras ao lado do seu resort em Joanópolis, a 120 quilômetros da capital. Não é à toa que o hotel foi batizado de Monte das Oliveiras – e um enorme desenho de oliveira enfeite o salão de refeições.

AZEITE NO BRASILMesmo com o crescimento do negócio na região da Mantiqueira, o líder nacional na produção de azeites ainda é o Rio Grande do Sul: de lá devem sair de 60 mil a 70 mil litros do produto ao longo do ano. O clima temperado oceânico é ideal para a produção e, com uma grande oferta de terras disponíveis, é possível promover um espaçamento maior entre as árvores, o que ajuda na produção.“São 160 olivicultores no Rio Grande do Sul  e 80 na Serra da Mantiqueira, o que é um número muito baixo se compararmos a outros países”, contabiliza Glenda Haas. “Isso se reflete na baixa produção. Este ano, vamos produzir em torno de 100 mil toneladas e importar 80 mil. São muitas terras ainda sem uso”.
A Prosperato, de Caçapava do Sul (RS), vem investindo em tecnologia desde 2011 e lançou seu azeite em 2013. “Não vemos ainda a necessidade de competir com os azeites estrangeiros, porque temos muitas lacunas para preencher no mercado interno”, diz o diretor Rafael Marchetti. “Sempre que termina a colheita falta azeite em algum lugar. Mas nenhum país é perfeito. Visitamos olivais do mundo inteiro e descobrimos muitos problemas. No ano passado, mandamos o nosso azeite para uma inspeção internacional e fomos premiados”. A Prosperato ficou com a medalha de prata no “Domina International Olive Oil Contest”, concurso de azeites de grande prestígio na Itália.

Glenda e a sua Olivoteca pretendem estabelecer parcerias com produtores internacionais. O primeiro intercâmbio será em abril: “Hoje a liderança do mercado está com a Espanha. A Itália vem atrás. Vamos começar com cursos em Portugal, que é outro grande produtor, até pela facilidade com o idioma”, diz. Ela acredita que, caso a olivicultura se desenvolva no país, o Brasil terá condições de competir com os melhores azeites do mundo, sobretudo no mercado interno: “Não digo em quantidade, mas sim em qualidade. Pensando no mercado interno, temos a vantagem do frescor: em uma semana a oliva extraída já está nos supermercados em forma de azeite”, comemora.