Escritor, jornalista, tradutor, empresário da indústria do petróleo e editor, Monteiro Lobato foi um dos primeiros autores de literatura infantil do país e de toda América Latina. Mas Lobato não escreveu apenas para o público infantil.

Sua produção abrange textos sobre petróleo, ferro e obras de cunho nacionalista. Merece atenção seu único romance adulto, uma ficção científica lançada em 1926 como “O choque – Romance do choque das raças na América no ano de 2228”, e relançada vinte anos depois como “O presidente negro”.

A obra trata de segregação e esterilização da população negra. O enredo apresenta forte ligação com o ideal da eugenia, como revela um anúncio de 8 de janeiro de 1927. A eugenia, do grego “bem nascido”, propunha a “purificação da raça humana”, baseada na adoção de medidas radicais de higiene social para excluir negros, imigrantes asiáticos e deficientes de todos os tipos.

No início do século XX, médicos, engenheiros, jornalistas e outras personalidades, que formavam a elite intelectual brasileira, viram na eugenia a “solução” para o desenvolvimento do país. Monteiro Lobato não estava sozinho. A paulista Adalzira Bittencourt, com o romance “Sua Excia. a Presidente da República no ano 2500” discutia uma reforma social com ideias eugenistas, propondo “a melhoria da espécie” por meio de políticas públicas de higiene e saúde.

Foi “São Paulo no ano 2000 ou Regeneração Nacional (Crônica da Sociedade Brasileira Futura)”, do dentista Godofredo Barnsley, publicado em 1909, o primeiro livro em que se pretendia moldar os destinos do Brasil por meio de medidas do Estado para o controle físico e comportamental da população, antes mesmo da chegada do movimento eugenista ao Brasil.

“Claro que o livro de Monteiro Lobato simboliza um pensamento racista que permeou a sociedade brasileira no início do século XX”, afirma o especialista Sílvio Alexandre. “Ninguém está livre de ideias equivocadas. Mas daí a censurar sua obra vai uma distância muito grande, sobretudo porque a censura é sempre condenável”