Josué Limeira, 51 anos, nascido e criado no Recife, faz da literatura de cordel um passatempo desde 1996. Em 2012, porém, Josué resolveu fazer disso uma profissão. Lançou um livro sobre o centenário de Luiz Gonzaga, o “Rei do Baião”. Iniciava ali sua trajetória como cordelista. Mas como um cordelista diferente. Orgulhoso das raízes e da linguagem nordestinas, ele pensou que poderia levá-las às crianças do Brasil afora “poetizando” obras famosas da literatura mundial.

A primeira ideia foi a de adaptar “O Pequeno Príncipe”, de Antoine Saint-Exupéry. Ele deu um toque nordestino para o texto e Vladimir Barros, do Sistema Jornal do Commercio de Comunicação, fez as ilustrações. O menino protagonista ganhou chapéu de cangaceiro; o Rei ganhou fitinhas de São João em sua coroa; a flor do deserto brotou de um cacto. Foi com esses e muitos outros trunfos que Josué tentou vender a ideia para as editoras: “Não consegui por causa da questão dos direitos autorais”, recorda. Então, em 2015, ano em que a morte de Exupéry completou 70 anos, a obra entrou em domínio público e ele finalmente pôde publicar. Paralelamente, já se dedicava à carreira de cordelista no projeto “Cordéis de Amor”, onde faz homenagens por encomenda.

Cordelista Josué Lima segura a adaptação de “O Pequeno Príncipe”, finalista do Prêmio Jabuti

“Uma semana depois do lançamento, uma escola de Brasília apresentou o livro para os alunos”, surpreendeu-se. “Comecei a viajar para dar palestras e a repercussão foi muito boa”. O livro ganhará em breve uma adaptação teatral. Para ele, o trabalho tem como uma de suas principais funções aproximar os mais jovens da cultura nordestina: “Com uma história conhecida, posso valorizar a nossa cultura, posso torná-la conhecida entre os jovens”, completa. O sucesso foi tanto que o livro foi indicado ao Prêmio Jabuti, o mais importante da literatura brasileira, em 2016.

Numa dessas visitas a escolas, Josué descobriu um novo filão ainda inexplorado na literatura de cordel. “Quando comecei a visitar as escolas, a criançada sempre me perguntava se eu tinha escrito alguma coisa sobre Pokemón. Foi um desenho que fez parte da infância do meu filho. Foi aí que tive a ideia de fazer um cordel sobre Pokemón”. O cordel “O matuto e o Pokemón” tem ilustração de Guilherme, filho do autor, hoje com 24 anos. “Anastácio de Zezé / Matuto de profissão / Caçador de chupa cabra / Sem medo de assombração / Ganhou um novo celular / Pra receber ligação / Era um celular bonito / Com 3G e com wifi / Atrás dele tinha escrito / Não se quebra quando cai”, narra o início da obra.

Pokémon e Game of Thrones em cordel

O “conflito” do matuto com um dos aplicativos mais comentados do ano de 2016 ganha um toque de humor digno de quem conhece o assunto: “Eu aprendi a jogar com o Guilherme”, confirma Josué. “Anastácio foi pra roça / E como estava sozinho. / Apertou na Pokebola / Que mostrou logo um caminho. / Tinha um cabra de mochila / Arrumado e magrinho. / Não demorou muito, amigo, / Já pulou um rato roxo / Com os dentes afiados, / Assombrado e afoito. / Chamava-se Rattata, / Queria comer biscoito”, narra ele em outro trecho.

Outra história que ganhou forma de cordel foi a série “Game Of Thrones”. Josué, espectador assíduo da produção, escreve assim: “Esse tal de Game of Thrones / É de cortar o gogó. / Todos querem a cadeira / Mas só levam a pior. / A cabeça é cortada, / No coração é flechada / E o povo ri sem dó / (…) / Na casa lá dos Stark / Pra bandas de Winterfell / Morava um tal de Ned / Tinha filhos a boléu. / Era protetor do norte / Mas coitado não deu sorte / E partiu para o beleléu”.

Josué está sempre na tradicional Feira da Rua do Bom Jesus, aos domingos, no Recife Antigo. Os interessados em saber mais de sua arte podem escrever para josue.limeira@gmail.com.

Leia também:
Depois de “O Pequeno Príncipe”, cordelista pernambucano lança “A Revolução dos Bichos” em versos
Curiosidades sobre literatura de cordel