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Por onde andam Juneca e Pessoinha, os primeiros pichadores de São Paulo

17 de janeiro de 2017

Os primeiros dias do mandato de João Dória (PSDB) como prefeito de São Paulo estão sendo marcados pela ideia de “choque de gestão” muito propagada durante a campanha. Em menos de um mês de prefeitura, Dória já colocou em prática o programa “Cidade Linda”. Ele já saiu para varrer ruas, ajeitar calçadas, plantar árvores e promete cuidar dos equipamentos públicos. Dentro desse contexto e disposto a deixar a cidade dentro do que ele considera ser os trilhos, o prefeito abriu fogo contra os pichadores.
A relação da cidade de São Paulo com a pichação é tumultuada. Em 1983, vários muros da capital apareceram “assinados” pela dupla Juneca e Pessoinha. A prática da pichação ainda não existia e ninguém sabia quem eram os dois. Foi a partir da curiosidade das pessoas com relação à identidade da dupla que eles se tornaram conhecidos. Quando assumiu a prefeitura, em 1986, Jânio Quadros ordenou que as forças policiais encontrassem Juneca e ele ficou um tempo sumido, aumentando ainda mais o mistério em torno de sua figura. Só no final da década, ele concedeu as primeiras entrevistas, já depois de ter abandonado a carreira de pichador. Em fevereiro de 1991, entrevistei Juneca para uma reportagem de capa de Veja S. Paulo.

Um dos muitos muros de São Paulo assinados pela dupla Juneca e Pessoinha na década de 1980


Osvaldo Junior, o Juneca, tem hoje 44 anos e lembra que tudo começou como uma brincadeira: “Eu e o Pessoinha éramos estudantes e tínhamos uma mobilete. Um dia, compramos tinta em spray para pintar a moto e tivemos a ideia de gravar nossos nomes no muro. Aquilo deu uma repercussão enorme e foi nos estimulando a fazer mais”, recorda. Ele resolveu abandonar a atividade em 1988, dois anos depois que seu parceiro Pessoinha tomou a mesma decisão. Juneca virou grafiteiro profissional e nega sentir orgulho de ter iniciado a febre dos pichadores na cidade. Com a experiência de quem enlouqueceu as autoridades por quase uma década, ele acredita que a ideia de Dória de bater de frente com os pichadores pode acabar gerando um efeito colateral: “A repressão não resolve nada e ainda pode estimular as pessoas a fazerem isso como forma de enfrentamento”, palpita.
Antonio Pessoa, 48 anos, deixou para trás os tempos de Pessoinha e virou advogado. Apesar de não ser especializado na área criminal, ele dá a sua visão sobre o contraste entre o passado transgressor e o presente trabalho com a lei: “Não concordo integralmente com a criminalização da pichação. Claro que há um limite. Não se pode violar um monumento público, por exemplo. Mas, em uma parede abandonada, por exemplo, por que criminalizar?”, questiona. A aposta dele é de que a repressão anunciada por João Dória não trará resultados positivos: “Eu não sou mais pichador, então não posso falar por eles. Mas imagino que isso possa estimular mais”, sugere Pessoa.

Osvaldo Júnior, o Juneca (à esquerda) e Antônio Pessoa, o Pessoinha: grafiteiro e advogado.


Juneca alerta os governantes para a mensagem que há por trás da prática: “Cada pichação é um aviso de que a cidade precisa de cultura. Muitos pichadores, principalmente os da periferia, fazem isso para provar que existem”. E é justamente por conta desse pensamento que ele elogia a ideia de Dória de oferecer alternativas aos pichadores: “Se os jovens tiverem um trabalho, uma oportunidade para exibir sua arte, talvez eles comecem a agir de maneira diferente”, acredita. Apesar de apoiar a existência de cursos e galerias de arte públicas, Antônio Pessoa acredita que isso não será capaz de eliminar a pichação. “Há uma grande distância entre o pichador e o grafiteiro”, afirma. “O grafite não oferece aquela adrenalina, aquela coisa meio ilegal, aquela disputa entre grupos”.
Em entrevista coletiva na semana passada, Dória foi enfático: “Limpamos a Ponte Estaiada, o que era uma questão de honra pra mim. É uma marca da cidade que estava toda pichada e imunda. E essas pessoas comemoravam isso. Colocavam nas redes sociais, espalhavam. Podem ter certeza que vão comemorar menos agora. Seremos implacáveis com os pichadores. Nós iremos dar a oportunidade de que os pichadores virem artistas. Vamos apoiar o grafite, vamos apoiar se eles quiserem se tornar muralistas. Criaremos galerias de arte com professores. Daremos alternativas. Os que preferirem pichar, vão enfrentar a força da lei”, prosseguiu, pedindo ainda colaboração da população para denunciar quem transgredir as regras.

A capa da Veja S. Paulo em que entrevistei Juneca (1991)


No meio desse fogo cruzado, a população tende a ficar ao lado dos governantes. Em dezembro de 2016, uma pesquisa divulgada pelo grupo Renova Centro 20/30, formada por comerciantes da região central da cidade, mostrou que 88,6% dos entrevistados consideram a pichação o pior tipo de poluição visual de São Paulo. Membro do Renova Centro 20/30 e diretor do grupo Convergência Comunicação, Carlos Battesti apoia a política de tolerância zero da atual gestão, mas cobra atenção também na recuperação dos locais violados. “Os resultados desse tipo de ação em outros países são muito bons”, avalia. “Mas, analisando o que aconteceu em Nova York,  concluímos que o cidadão precisa ver que o poder público está atuando na recuperação imediata daquele patrimônio.”
Para Battesti, a rejeição da população aos pichadores é realmente muito grande e, por isso, será preciso que o Poder Público demonstre muita eficiência no resgate dos locais violados. Juneca aponta a violação de cartões-postais da cidade como o principal fator para que a população se volte contra os pichadores: “Nós nunca pichamos um monumento público. A poucos dias da eleição de 2016 o Monumento das Bandeiras apareceu todo sujo de tinta. Esse tipo de coisa revolta o cidadão que se identifica com aquele local”, opina.
No último fim de semana, quatro pichadores foram presos – Dória chegou a anunciar 28, mas sua assessoria comunicou posteriormente que houve um equívoco. Em um prédio próximo ao Terminal Bandeira, no centro, estava a frase “Dória, pixo é arte”. No Largo da Batata, a frase era “Não dê vexame, São Paulo não é Miami”, em referência ao discurso de que seria criado um “grafitódromo” a exemplo do que acontece na cidade norte-americana. O prefeito também foi pintado com a roupa de gari usado no primeiro dia útil de mandato em um muro na Zona Leste.

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3 Comentários

3 Comentários

  1. Vania Ciorlia

    A primeira jornalista a desvendar quem eram os 2 fui eu, por acaso. Era editora da veja SP, estava na casa do grafiteiro Alex Vallauri, e toda a imprensa tentava encontrar esses personagens, até porque o Janio Quadros, então prefeito de Sampa, queria pegá-los de qualquer jeito. POis o Alex atendeu o telefone e disse “Oi Juneca, tudo bem?…Quando ele desligou perguntei se era o Juneca que estampava o nome nos mais absurdos locais da cidade e ele disse que sim. Pedi que o chamasse e ele veio. E acabei fazendo uma reportagem na Veja SP onde eles foram fotografados disfarçados. Bem, o Janio me convocou via Diário Oficial para um audiência exigindo que eu revelasse quem era a dupla. E obviamente usei o recurso de não divulgar as fontes…

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  2. Eloisa Deveze

    Olha, Marcelo, eu tenho certeza que eles começaram a assinar os seus nomes nos muros em 74, 75 apesar de terem lhe dito que foi em 83. É que, na época, estava no ginásio e todos os dias, a caminho da escola, eu passava em frente um muro – perto do Shopping Ibirapuera – e via seus nomes escritos nele. Muitos anos depois, no final dos 80, fui fazer uma matéria sobre grafite e, se eu não me engano, foi o companheiro de Alex Vallauri que me indicou Juneca – que, para meu espanto, era o mesmo que havia assinado seu nome naquele muro.

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  3. manoel

    Moro No Planalto Paulista – no muro do brejo da igreja de São Judas (Av Piassanguaba) fizeram uma pixação que deixou descontente o pessoal do orfanato. O que fizaram? “Pixaram o pixo” colocando um B no lugar do J kkk.

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