Brasil já teve bandeira parecida com a dos Confederados americanos

24 de junho de 2020

Dois dias depois da Proclamação da República, ao meio-dia de 17 de novembro de 1889, o vapor Alagoas partiu com a família imperial brasileira para o exílio na Europa. A embarcação – o mais novo e moderno navio de passageiros da marinha mercante do Brasil – levava em seu mastro a bandeira republicana provisória, formada por um cantão maior, de cor azul, ocupando o espaço de sete listas e contendo vinte estrelas. A bandeira de 13 listras verdes e amarelas, com 20 estrelas no cantão azul, era totalmente inspirada na bandeira americana “Stars and Stripes”. Essa bandeira brasileira só teve quatro dias de vida, de 15 a 19 de novembro, e diferentes versões. Cada movimento republicano do Rio de Janeiro tinha feito de um jeito. Na Câmara Municipal do Rio de Janeiro, por exemplo, foi hasteada uma com 21 estrelas no cantão azul. O Clube Republicano Lopes Trovão fez a sua com o cantão em preto. Uma bandeira com 21 estrelas também foi içada no encouraçado Riachuelo, que fez a escolta do barco de Dom Pedro II até Salvador, no dia 22 de novembro, segundo o livro “A história dos símbolos nacionais”, de Milton Luz.

O mais curioso dessa história aconteceria no dia 1º de dezembro. No artigo “A Proclamação da República no Brasil”, de 2015, o pesquisador e advogado Antônio Sérgio Ribeiro revela que esta bandeira foi retirada quando o navio passou por São Vicente, no arquipélago de Cabo Verde, colônia portuguesa no Oceano Atlântico. Durante a escala, o Alagoas ganhou em sua popa uma outra bandeira “que imitava o “M” do Código Internacional de Sinais, com o cantão completamente vermelho contendo uma cruz em aspa branca com 21 estrelas em azul, sendo a estrela do centro maior”. Essa bandeira foi entregue em alto-mar pelo capitão-tenente do Riachuelo, Alexandrino Faria de Almeida, ao capitão-de-fragata do Alagoas, José Carlos Palmeira, como símbolo do novo regime brasileiro. “Havia muitas propostas de bandeiras para a nova República e esta era uma delas”, explica Tiago José Berg, autor de “Bandeiras de Todos os Países do Mundo”. Tal bandeira se assemelhava à bandeira naval usada pelos Confederados nos Estados Unidos (veja mais abaixo).

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Vapor Alagoas voltou a usar a bandeira do Império

Antônio Sérgio Ribeiro continua a narrativa assim: “Essa bandeira foi entregue em alto mar pelo comandante do Riachuelo ao capitão Pessoa, como símbolo do novo regime brasileiro. A nova bandeira iria causar uma quase crise com Portugal, que determinou a sua retirada por não ser reconhecida de acordo com as normas internacionais. Para evitar maiores problemas, o governo provisório brasileiro determinou que durante a permanência do navio em águas portuguesas não fosse arvorado nenhum pavilhão.

“Quando da partida do Alagoas, o navio da marinha portuguesa Bartolomeu Dias, que estava no porto, deu uma salva de 21 tiros de canhão. Nesse momento, foi içada a bandeira do Império, e todos que estavam a bordo se levantaram e bateram palmas, alguns emocionados até as lágrimas. Da embarcação lusitana e de alguns navios alemães que ali se encontravam, tripulantes e passageiros sacudiram lenços brancos.”

Em 7 de dezembro, com a bandeira do Império ainda tremulando no mastro, o Alagoas chegou a Lisboa. O vapor usou, portanto, três diferentes bandeiras em sua viagem. A primeira delas está exposta no Palácio do Catete, no Rio de Janeiro.

Como a bandeira virou símbolo dos supremacistas

A bandeira dos Estados Confederados foi usada durante a Guerra de Secessão ou Guerra Civil americana, que aconteceu entre 1861 e 1865. No livro “Bandeiras de Todos os Países do Mundo“, Tiago José Berg publicou a evolução da bandeira que representava os estados do Sul do país. À medida que novos estados aderiram à Confederação na luta contra Estados da União, a bandeira também agregava novas estrelas. Começou com sete, em fevereiro de 1861, e passou a ser treze no final do mesmo ano. No áudio a seguir, o professor Berg explica como a versão naval da bandeira dos Confederados passou a ser usada por movimentos supremacistas brancos americanos, incluindo a Ku Klux Klan.

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