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The English Game: o gesto que virou uma armadilha para roteiristas de filmes de futebol

21 de abril de 2020

Roteiristas de filmes e séries costumam cair sempre na mesma armadilha. Explico isso daqui a pouco. “The English Game”, série de seis episódios que estreou na Netflix em 2020, trata principalmente da entrada de operários num esporte criado e dominado por aristocratas. A luta de classes é o fio condutor da trama, mais até que o próprio futebol. “The English Game” é baseada em dois personagens que existiram de verdade: Arthur Kinnaird, primeira estrela do futebol inglês e depois presidente da Federação Inglesa de Futebol por 33 anos, e o escocês Fergus Suter, considerado um dos primeiros jogadores profissionais da história. Eu escrevi “baseada”, pois não há muita preocupação com precisão de datas, resultados e acontecimentos. Mesmo a história de Jimmy Love, grande parceiro de Suter, é bem diferente do que foi mostrado na série. Depois de ver os episódios, sugiro uma pesquisa na internet.

Gesto criado pelo brasileiro Bellini na Copa de 1958

(Atenção: parágrafo a seguir contém spoiler!)  

Mas vamos à armadilha, conforme prometido no parágrafo acima. No último episódio, temos a disputa da final da Copa da Inglaterra de 1880 entre o Old Etonians, time de nobres londrinos, que tem Kinnaird como capitão, contra o Blackburn Rovers, time de operários da região norte do país. O capitão do Blackburn é Fergus Suter. Essa decisão existiu apenas na ficção e o Blackburn venceu por 2 x 1. Foi o primeiro time da classe trabalhadora a vencer a Copa da Inglaterra. Houve uma final parecida com esta em 1883. O Blackburn Olympic derrotou o Old Etonians e se sagrou campeão. Suter estava no rival do Olympic, o Rovers, que perdeu a final de 1882 e depois se sagraria campeão em 1884, 1885 e 1886.

Mas voltemos à final disputada na série. Campeão, Suter é convidado a receber o troféu das mãos do goleiro do Old Etonians e também presidente da FA. Ele faz, então, o famoso gesto de levantar a taça por cima da cabeça e agitá-la para o público. Errado!!! Esse gesto, na verdade, só seria inventado na Copa de 1958 pelo capitão brasileiro Hideraldo Bellini. Ele estava no palanque de madeira, diante de um batalhão de fotógrafos e jornalistas que registravam a cena. Numa posição pouco privilegiada, um fotógrafo pediu que o capitão levantasse a taça para que pudesse fazer a imagem também. Foi aí que Bellini segurou a Taça Jules Rimet com as duas mãos e a ergueu sobre a cabeça, num gesto que passou a ser repetido por todos a partir de então.


O capitão alemão na Copa de 1954 cometeu o mesmo erro de Fergus Suter


Outro roteiro que caiu no mesmo erro histórico foi do belíssimo O Milagre de Berna (2003), um dos melhores filmes de ficção sobre Copa do Mundo já lançados. Ele mostra a aventura  de um garoto alemão que vai a Berna, na Suíça, assistir à final entre seu país e a Hungria na Copa de 1954. Merecem destaque as reconstituições dos lances da final, que são difíceis de fazer e foram muito bem executadas (dão de 7 x 1 nas cenas de futebol de “The English Game”). Na ficção, ao receber a taça, o capitão alemão Fritz Walter faz o mesmo gesto de Fergus Suter. Ergue o troféu sobre a cabeça. No filme oficial da FIFA, entretanto, dá para ver Walter recebendo a Jules Rimet e saindo caminhando com ela na mão sem o menor pingo de emoção.

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