O “Parabéns a Você” nasceu nos Estados Unidos em 1875. As irmãs Mildred e Patrícia Smith Hill, professoras primárias de uma escola de Louisville, criaram uma quadrinha para as crianças cantarem quando chegassem à escola. O nome da música era “Good Morning To All” (Bom Dia para Todos) e nada mais era que o título da canção repetido quatro vezes.
Quase cinquenta anos depois, em 1924, Robert H. Coleman lançou o livro de partituras “Celebration Songs” por uma editora musical americana, a Clayton F. Summy Company. Como não havia nenhuma música específica para celebrar os aniversários, ele aproveitou a melodia das irmãs Hill (sem dar os créditos a elas) e trocou o “Good Morning To All” pelo “Happy Birthday To You”. A frase também era repetida quatro vezes – sendo que, na terceira, o “To You” deveria ser substituído por “dear” (querido) e mais o nome do aniversariante.
Happy birthday to you
Happy birthday to you
Happy birthday, dear (nome)
Happy birthday to you
Nove anos depois, em 1933, a canção foi usada como tema de uma peça teatral na Broadway, em Nova York, intitulada “Happy Birthday To You”. A canção tornou-se bastante popular dos Estados Unidos sem que as pessoas soubessem suas verdadeiras autoras. Também em 1933, a irmã mais nova de Mildred e Patty, Jessica Hill, entrou com uma ação reivindicando os direitos autorais. Na Justiça, Jessica conseguiu provar o parentesco de “Happy Birthday To You” com “Good Morning To All” e passou a receber os direitos autorais junto com a editora que publicou a canção pela primeira vez.
Turistas americanos começaram a espalhar a música pelo mundo. Foi assim que ela chegou ao Brasil no final da década de 1930. As famílias ricas gostavam de cantar o Happy Birthday, em inglês mesmo, em suas festas.
Como Mildred e Patty Hill não se casaram e nem tiveram filhos, seus parentes mais próximos criaram uma fundação de caridade para receber a parte dos royalties que lhes cabia. A editora Clayton F. Summy Company foi comprada ainda na década de 1930 e vendida outras vezes até cair nas mãos da Warner/Chappell Music em 1988.
Até 2015, a versão em inglês da canção rendia 2 milhões de dólares por ano em royalties, que eram divididos entre a Fundação Hill e a gravadora. Em fevereiro de 2016, a Justiça nos Estados Unidos decidiu que a canção estava em domínio público.
Quando a música ganhou uma letra em português?
O cantor, compositor e radialista carioca Henrique Foréis Domingues (1908-1980), mais conhecido pelo apelido de “Almirante”, era um profundo defensor da música brasileira. Ele se sentia incomodado com aquela história de ficarmos cantando em inglês.
Almirante ouviu a música pela primeira vez em 1937 no Cassino da Urca, local onde as pessoas iam para jogar e assistir a grandes espetáculos. Ela foi entoada por um grupo de turistas americanos para homenagear um aniversariante. A partir daí, sempre que alguém fazia aniversário, o maestro Vicente Paiva, que comandava a orquestra do Cassino, mandava apagar as luzes e tocava o “Happy Birthday To You”.
O público cantava mesmo sem saber direito a letra. Para aumentar o seu desconforto, em 1940, Almirante ouviu a cantora Dircinha Batista entoar a música “Feliz Aniversário”, de Alvarenga e Ranchinho, e a plateia do cassino não demonstrou nem um pingo de empolgação. A letra dizia:
Feliz aniversário
Luz dos olhos meus
São os meus ardentes votos
Feliz aniversário junto aos seus
Mas era só o maestro Paiva começar a executar o “Happy Birthday To You” para as pessoas delirarem. Por isso, em outubro de 1941, Almirante decidiu promover um concurso para escolher uma letra em português no seu programa “Orquestra de Gaitas da Rádio Nacional”. O patrocínio era das Casas Pimentel, uma loja de rádios do Rio de Janeiro.
O leitor mais curioso encontrará na internet inúmeras reportagens dizendo que o concurso foi promovido pela Rádio Tupi, também do Rio de Janeiro. A informação está errada. O resultado do concurso foi divulgado às 21h30 do dia 6 de fevereiro de 1942. Almirante assinou contrato com a Tupi em 1º de março daquele ano.
Quem ganhou o concurso?
Filha de fazendeiros, Bertha Celeste Homem de Mello nasceu em Pindamonhangaba, cidade a 158 quilômetros de São Paulo. Formou-se em Letras e Farmácia, mas nunca exerceu as carreiras. Era dona-de-casa. Seus principais passatempos sempre foram ouvir rádio ou os discos de Sílvio Caldas, fazer crochê e participar de concursos de poesias, que escrevia desde os 15 anos. Casou-se, em 1925, com um primo, Lorival Homem de Mello, inspetor federal de ensino. Teve uma filha, Lorice, cinco anos depois. Extremamente vaidosa e discreta, Bertha não gostava de cozinhar.
Quem me contou tudo isso foi Eliana Homem de Mello Prado, filha de Lorice e única neta de Bertha. Além de ricas informações sobre a rotina da avó, ela me apresentou o livro de “Poesias”, uma coletânea de textos que Bertha escreveu ao longo da vida. Bertha lançaria outra coletânea chamada “Devaneios”.
Bertha estava prestes a completar 40 anos quando venceu o concurso. Ela gostava de contar que a ideia brotou em apenas 5 minutos. Foi um funcionário dela que levou a carta até o Correio. Ela usou o pseudônimo de Léa Magalhães. A quadrinha era assim:
Parabéns, parabéns
Nesta data querida
Muita felicidade
Muitos anos de vida
Quem escolheu a quadrinha de Bertha?
Almirante convidou quatro escritores de renome para compor o júri: Cassiano Ricardo, Olegário Mariano, Múcio Leão e André Carrazzoni – os três primeiros membros da Academia Brasileira de Letras. O jornal “A Noite” registrou que o concurso recebeu 5 mil cartas. Coube a Múcio Leão representar os jurados no programa que revelou o ganhador. Artistas da Rádio Nacional – Francisco Alves, Orlando Silva e o Trio de Ouro – interpretaram a letra vencedora. Mas o concurso não foi um acontecimento na época, não.
Pensei que Bertha tivesse se tornado uma celebridade em sua cidade na época. Não foi bem assim. Fiz uma pesquisa no arquivo do “Tribuna do Norte”, jornal de Pindamonhangaba, e não encontrei nada sobre o concurso.
Houve um prêmio em dinheiro para a vencedora. Em uma fonte, por exemplo, encontrei que ela recebeu 200 cruzeiros (a época do concurso foi a mesma em que o Brasil trocou os Mil-réis pelo Cruzeiro). Não consegui checar esse valor.
Quando a nova versão foi gravada?
A primeira gravação da música foi feita em 1944 pelo grupo Milionários do Ritmo, com os vocais de Os Trovadores. Bertha ficou incomodada porque a Continental resolveu modificar a letra. Em vez de “Parabéns, parabéns”, a gravadora colocou “Parabéns a você”. A gravação começa com a música em inglês e depois a versão em português é repetida três vezes.
A família de Bertha ainda ganha dinheiro com sua letra?
A decisão da Justiça americana de transformar a música em domínio público não alterou o pagamento de royalties no Brasil. O dinheiro da versão brasileira é dividido assim: 41,7% para a Fundação Hill; 41,7% para a Warner; e 16,6% para a família de Bertha.
É preciso pagar uma taxa toda vez que uma música é executada publicamente ou é usada em filmes, novelas, discos, comerciais, eventos promocionais, programas de rádio ou televisão (calma: cantar parabéns na sua festinha de aniversário em casa ou não escola não será cobrado!).
Em 1978, o produtor musical Jorge de Mello Gambier fez uma continuação da música para o quarteto feminino que ele acabara de criar, As Melindrosas, que contava com as irmãs Gretchen e Sula Miranda. Gambier escreveu as estrofes “A você muito amor/E saúde também/Muita sorte, amigos/Parabéns, Parabéns”. Por causa disso, o produtor passou a ser apontado como coautor da letra e começou a receber metade dos 16,6% que cabiam a Bertha. O processo judicial se arrastou até 2009 e Gambier acabou derrotado.
Pelas leis brasileiras, a letra escrita por Bertha cairá em domínio público somente setenta anos depois da morte da autora, ou seja, no final de 2070.
Quais foram as homenagens que Bertha recebeu pela autoria do “Parabéns a Você”?
A letra em português pegou de vez quando foi cantada por uma multidão de paulistanos na festa do IV Centenário de São Paulo, em 1954. Para Bertha, porém, o momento de maior emoção foi ouvir o seu “Parabéns a Você” ser cantado para o Papa João Paulo II, em sua visita a Aparecida do Norte, em 1980. Outro momento emocionante foi ter participado do Cidade x Cidade, quadro do “Programa Sílvio Santos”.
Graças à letra, Bertha ganhou uma cadeira na Academia Pindamonhangabense de Letras – a única mulher na formação original. Em 2013, o cantor, compositor e apresentador Rolando Boldrin declamou um poema de Bertha, “A Capelinha do Arraiá”, no programa “Sr. Brasil”. Ela assinou o poema como “Condessinha”, outro pseudônimo que usava. Aos 54 anos, ela se mudou para a vizinha Jacareí, onde a filha Lorice foi lecionar. Em 1998, Bertha recebeu o título “Cidadã Jacareiense”. Há uma rua em Jacareí com seu nome.
Bertha morreu em 16 de agosto de 1999, aos 97 anos. A neta me contou que, até o fim da vida, ela corrigia quando alguém cometia o que ela chamava de “erros gravíssimos” com sua letra. O certo, dizia ela, é: “Parabéns a você” (não “pra você”), “nesta” (e não “nessa”) e “muita felicidade” (sempre no singular!).
