“Ei, você aí, me dá um dinheiro aí, me dá um dinheiro aí”. Uma das mais famosas marchinhas do Carnaval brasileiro nasceu em 1959. A TV Rio exibia um programa chamado “Rio, Te Adoro”, escrito por Aloysio Silva Araújo, Manoel de Nóbrega, Carlos Alberto de Nóbrega e Glauco Ferreira. Moacyr Franco tinha 23 anos e ainda era um aspirante a estrela. Fazia algumas pequenas participações (ou pontas, como se diz na gíria televisiva) e um ou outro número musical. Certo programa, Moacyr foi escalado para participar de um quadro humorístico. Tinha uma única fala. O ator Iran Lima interpretava um marido que, conversando com a companheira, reclamava que a cidade estava infestada de mendigos pedindo esmola. A mulher dizia que era um exagero. É aí que Iran iria se deparar com um mendigo (papel de Moacyr), que deveria dizer: “Moço, me dá um dinheirinho!”. Essa era a piada.

Antes da gravação da cena, o comediante Canarinho, mais experiente, resolveu dar um conselho ao novato. Canarinho disse a Moacyr que ele não precisava ficar restrito ao texto. Deveria dizer algo mais impactante, com um tom de voz forte, potente. “Ei, você aí, me dá um dinheiro aí!” foi a sugestão. E acrescentou que ele deveria ir para cima de Iran, dizendo: “Não vai dar, não? Você vai ver que grande confusão que vou fazer”. Moacyr seguiu à risca os conselhos de Canarinho. A cena funcionou muito bem e a plateia se desmanchou em risadas.

A ideia deu tão certo que, nos programas seguintes, os redatores escalaram o mendigo para aparecer nos lugares mais inusitados, sempre atrás do personagem de Iran. A plateia passou a aguardar, ansiosamente, a entrada surpresa do mendigo. Ele chegou a sair de dentro de um guarda-roupa, de uma geladeira, de um carrinho de sorvete, do teto da sala. O bordão “Ei, você aí, me dá um dinheiro aí” pegou.

Alguns programas mais tarde, o roteiro dizia para o personagem de Moacyr cantar uma música de Carnaval. Ele cantou os bordões do mendigo em ritmo de samba. Pouco tempo depois, Glauco Ferreira, um dos redatores do programa, e os irmãos dele, Homero e Ivan, apresentaram a Moacyr uma marchinha com as frases ditas pelo mendigo. Apesar de ter gostado de cara da letra, Moacyr achou mais prudente conversar com Canarinho antes de fechar o negócio. Canarinho disse: “Vai lá e grava, meu filho! Grava que vai ser um sucesso”. A gravadora Copacabana se interessou pela música. Moacyr gravou um disco em 78 rotações ainda em 1959. De um lado, “Me da um dinheiro aí”; do outro, “Compromisso do Palhaço”, de Sálvio Curval.

A marchinha fez sua estreia no programa “Rio, Te Adoro” e acabou se tornando a mais tocada do Carnaval de 1960. De lá para cá, ela nos acompanha em todos os Carnavais.