JOGO DO BICHO

“A ideia foi do mexicano Manuel Zevada em 1892”, afirma Ângela Sevastano, folclorista do Museu do Folclore de São José dos Campos (SP). Ele era amigo do barão João Batista Viana Drummond. Progressista e apoiador da causa abolicionista, o barão havia aberto em 1888 o primeiro zoológico do Brasil, no bairro de Vila Isabel, zona norte do Rio de Janeiro. Quando o Império caiu, os primeiros republicanos retiraram a ajuda ao zoológico do monarquista.

Zevada sugeriu que ele realizasse um sorteio para aumentar os lucros do local. A ideia era simples: cobrar 1 mil réis pelo ingresso e imprimir junto deste um dos animais do zoológico. Ao mesmo tempo, mandou fazer 25 quadros, cada um representando um bicho. Às 7 da manhã, antes da abertura do zoológico, um deles era colocado numa caixa de madeira, pendurada a cinco metros de altura, num poste. Ao final do dia, o animal era revelado. Quem tivesse o ingresso daquele animal ganhava um prêmio em dinheiro no valor de vinte vezes o preço do ingresso. O primeiro sorteado, em 3 de julho, foi a avestruz.

JOGO DO BICHO - LISTA DOS ANIMAIS

“A exploração do jogo do bicho dentro do zoológico logo foi proibida pouco tempo depois e o sistema foi adotado pela loteria oficial”, conta Sevastano. O tal sistema é adotado até hoje: são 25 animais, tendo cada um quatro números que vão de 1 a 00. O avestruz, o primeiro, vai de 1 a 4, a águia de 5 a 8, e por aí segue. Algum tempo depois, o jogo do bicho deixou de ser realizado de maneira oficial. Os banqueiros, então, retomaram a tradição. Os resultados eram afixados ao fim do dia nos postes da cidade. Em 1941, o jogo foi definitivamente proibido por lei.

E só para a lei. Na prática, o crescimento seguiu acelerado. As apostas eram muito baratas, permitindo que todos participassem. Com isso, formaram-se impérios de contraventores, que ficaram conhecidos como “bicheiros”. Muitos deles alcançariam repercussão mundial através do financiamento de escolas de samba: o primeiro deles foi Natal da Portela, mas depois vieram Anísio Abrahão David (Beija-Flor), Luizinho Drummond (Imperatriz), Aílton Guimarães (Vila Isabel), Waldomiro Garcia (Salgueiro) e o mais emblemático deles, Castor de Andrade.

Castor transformou a Mocidade Independente de Padre Miguel em uma potência e fundou a Liga Independente das Escolas de Samba do Rio de Janeiro, responsável por organizar melhor e aumentar a lucratividade dos desfiles das escolas de samba. Além disso, montou um timaço para o Bangu, time que também está situado na Zona Oeste do Rio de Janeiro, a ponto do clube se tornar vice-campeão brasileiro de 1985. Até hoje o pavilhão da Mocidade e a camisa do Bangu trazem um pequeno castor.

Idolatrado por sambistas e torcedores, falava abertamente de seu papel como contraventor na TV e chegou a cumprimentar o presidente da República João Baptista Figueiredo. Preso várias vezes, dava festas em suas cela e fugia quase sempre. O deboche e a ironia quanto à transgressão da lei viraram moda entre os amigos contraventores – em 1993, catorze deles foram presos de uma vez e alguns assistiram de dentro da cadeia, juntos, a apuração do Carnaval de 1994.

Em uma dessas fugas de Castor, o disfarce ruim virou piada em um jornal carioca: “Castor de Andrade é preso disfarçado de Castor de Andrade”. Ele morreu em 1999 enquanto jogava baralho em um apartamento de luxo em Copacabana. Encontrava-se mais uma vez foragido e sofreu um infarto fulminante.

Em geral, os bicheiros carregam ainda dezenas de denúncias de assassinatos, torturas e perseguições pela manutenção de seus espólios – algo que se acentuou dentro das próprias famílias com a morte dos mais tradicionais, como o próprio Castor e Waldomiro Garcia. Eles são acusados até mesmo de ligação direta com o regime militar.