Paulista de Cafelândia, José Datrino espalhava suas palavras de amor, solidariedade e conforto pelas ruas. Era reconhecido pela túnica branca e barba também branca.

Um incêndio criminoso matou 503 pessoas no Gran Circus Norte-Americano, em Niterói (RJ), em 17 de dezembro de 1961. Datrino plantou um jardim sobre as cinzas e trabalhou como “consolador voluntário” das famílias. Era dono de uma frota de três pequenos caminhões e largou tudo para pregar. A mulher achou se tratar de algum tipo de loucura e o internou algumas vezes. Depois aceitou seu novo papel de poeta popular.

Na época, um boato dizia que Datrino teria enlouquecido porque perdeu toda a família nesse incêndio. Ele mesmo desmentiu a informação. Mas o boato foi tão forte que ele continua se disseminando até os dias atuais.

Ficou conhecido como “José Agradecido” e depois como “Profeta Gentileza”.

Em 1980, ele fez murais em 56 pilastras do Viaduto do Gasômetro, entre o Cemitério do Caju e o Terminal Rodoviário, no Centro do Rio de Janeiro. Na número 3, ele iniciava a inscrição assim: “Este é o Profeta Gentileza que gera gentileza”. Tudo era escrito com sua caligrafia característica, com detalhes sempre em verde e amarelo.

Usava também a frase “Gentileza Gera Gentileza” em estandartes que carregava em suas pregações. Tornou-se celebridade não só na cidade carioca, como em outras partes do mundo.

Com o tempo, seus murais foram vandalizados. Até que, em 2000, eles foram recuperados e tombados pelos órgãos de proteção da Prefeitura do Rio de Janeiro.

O Profeta Gentileza morreu em 1996, aos 79 anos.

A frase, que se espalhou em todo tipo de produto, foi registrada pela família de Datrino, em nome do neto Vagner de Sant’Anna Datrino, apenas em 2012. A concessão saiu em 2015. Até então, as três filhas e os filhos de Datrino só haviam recebido um pagamento de 15 mil reais da Rede Globo, que caracterizou Paulo José como Gentileza na novela “Caminhos das Índias”, em 2009.

Foi homenageado como tema de samba-enredo no Carnaval, com livro, com músicas de Gonzaguinha e Marisa Monte, e como personagem de novela de TV.

O marketing em torno da famosa frase acabou apagando atos nada gentis do profeta. Em crônica publicada na “Folha de S. Paulo”, em 25 de abril de 2022, o jornalista e escritor Ruy Castro contou que o “profeta” não passou de um mito: “Na vida real, Gentileza era só um doido: um desvairado de camisolão que ofendia, ameaçava e dava corridas nas moças de batom, calça comprida ou minissaia que passavam pela região das barcas [entre Rio e Niterói]”. Corria atrás delas com gritos de “você vai arder no inferno, mulher do demônio”.