Foi lançado no Brasil pela Editora Gutenberg, no mês passado, o livro “Músicas e Musas”, de Michael Heatley e Frank Hopkinson. Trata-se de uma compilação de 50 histórias de musas de canções famosas. Entre os casos, há detalhes sobre a disputa de George Harrison e Eric Clapton por Pattie Boyd, que inspirou clássicos como “Layla” (Clapton) e “Something” (Harrison); o conturbado relacionamento de Mick Jagger com a groupie Chrissie Shrimpton, que o fez compor “Under My Thumb”; e depoimentos da nossa já internacionalizada “Garota de Ipanema”, Helô Pinheiro.

Livro Músicas e Musas
A música brasileira – que dá apenas uma contribuição ao livro – é também repleta de musas inspiradoras. Apesar de nenhuma outra ter sofrido a repercussão mundial de “Garota de Ipanema”, muitas ficaram bem famosas por aqui. Todo brasileiro sabe que existe uma Anna Júlia e uma Carol Bela, mas o que motivou nossos músicos a comporem sobre elas? Descubra aqui no Blog do Curioso:

Anna Júlia – Los Hermanos

Lançada em 1999, a canção foi escrita por Marcelo Camelo, vocalista do Los Hermanos, com base na história do produtor da banda, Alex Werner. Na época em que cursava Direito na PUC (Rio de Janeiro), ele paquerava uma estudante de jornalismo chamada Anna Julia Werneck, de  21 anos, mas não se aproximava dela porque era muito tímido. Apenas mandava bilhetes pelos amigos. Depois que a música foi composta, Alex tentou uma nova aproximação. Os dois chegaram a ter um caso, mas o romance não engatou. A música, que a princípio não ia nem ser gravada, não podia ter dado mais certo – levou o primeiro álbum do Los Hermanos a conquistar um disco de platina. Anna Júlia ainda pode render mais inspirações: a garota namorou Patrick Laplan, ex-integrante do Los Hermanos, ex-baixista do Biquíni Cavadão e atual multi-instrumentista da banda Eskimo.

All Star – Nando Reis

A dona do All Star azul que Nando Reis não vê a hora de encontrar é a cantora Cássia Eller. Muito amigo da roqueira, Nando sempre a visitava em seu apartamento, que ficava no 12º andar do prédio Beverly Hills, no bairro das Laranjeiras, no Rio de Janeiro. Os amigos compunham juntos e Nando Reis adorava que suas músicas fossem interpretadas por ela. Apesar de frequentar muito sua casa, ao enviar-lhe uma carta, ele ficou surpreso por descobrir que não sabia o endereço dela. Está tudo na música: “Se o homem já pisou na lua, como eu ainda não tenho seu endereço? / o tom que eu canto as minhas músicas para a tua voz parece exato”. Cássia Eller morou lá até sua morte, em 2001. Nando Reis ainda guarda com carinho sua parte da herança: o All Star azul.

Carolina Carol Bela – Jorge Ben e Toquinho

A inspiradora foi Maria Carolina Whitaker. Na década de 60, a moça tinha o Bar Branco, na Rua Santo Antônio, no bairro paulistano da Bela Vista. Tanto o bar como sua casa, apelidada de “Solar da Paz”, costumavam ser frequentados por Jorge Ben – que adorava seus doces de banana e pães de queijo – e o então namorado de Carol, Toquinho. De brincadeira, os músicos, sentados no sofá, compuseram a canção para ela. O sonho de Maria Carolina sempre foi se tornar cantora. Ela ainda não o realizou, mas sua filha Céu está traçando um caminho bem-sucedido no cenário da música brasileira.

Drão – Gilberto Gil

Sandra Gadelha ganhou o apelido “Drão” da cantora Maria Bethânia (a palavra vem do aumentativo de “Sandra”). Mas o nome se popularizou na música que Gilberto Gil fez para ela, que acabou virando um dos maiores sucessos de sua carreira. Os dois foram casados por 17 anos. O compositor escreveu a música em 1981, poucos dias depois da separação. A letra é uma parábola sobre o amor, que não morre – e sim, se transforma. Assim como o trigo, ele nasce, vive e renasce de outra forma. Há referências à cama de tatame onde o casal costumava dormir (“cama de tatame pela vida afora”) e aos três filhos frutos do relacionamento deles (“os meninos são todos sãos”). O curioso é que o próprio Gil era um dos poucos da roda de amigos que não chamava a mulher de Drão. Ele e Caetano a chamavam de “Drinha”.

Lygia – Tom Jobim

Lygia Marina de Moraes, ex-mulher do escritor Fernando Sabino, conheceu Tom Jobim aos 21 anos, em 1968, no antigo bar Veloso, em Ipanema, no Rio de Janeiro. Aconteceu um pequeno flerte no dia em que foram apresentados, mas não passou disso. Na época, Tom era casado. Mesmo assim, a “quase relação” acabou virando canção. Antes de saber do casamento de Lygia com Sabino, Tom pediu o telefone da moça ao amigo, que lhe passou o número errado. O episódio foi registrado na letra: “e quando eu lhe telefonei / desliguei, foi engano”. O maestro negou durante anos a identidade de sua musa. A revelação ocorreu em 1994, ano em que Lygia e Sabino se separaram. Um dado curioso: os olhos de Lygia são verdes, apesar de a letra dizer serem castanhos (“mas seus olhos morenos / me metem mais medo que um raio de sol”). Não foi um deslize de Jobim, mas um disfarce digno de um admirador secreto.

Madalena – Ronaldo Monteiro de Souza e Ivan Lins

Em 1970, Ronaldo Monteiro estava chateado com o fim do namoro de três anos com Vera Regina. Foi até um bar em frente à praia de Copacabana, no Rio de Janeiro, para afogar as mágoas. Olhando o mar imenso, teve a ideia do verso “o mar era uma gota / comparado ao pranto meu“, e escreveu a letra em um guardanapo com a caneta do garçom. Mas não teve coragem de colocar o nome da ex na canção. Segundo ele, Madalena foi o primeiro nome que lhe ocorreu.

Morena dos Olhos d’Água – Chico Buarque

A socialite e psicanalista Eleonora Caldeira – ex-mulher do empresário Wilson Mendes Caldeira Júnior – serviu de inspiração para a música do cantor Chico Buarque, lançada no álbum “Chico Buarque de Hollanda” (1967). Chico compôs a música com apenas 22 anos, quando cultivava uma paixão platônica pela diva da alta sociedade paulistana.

Irene – Caetano Veloso

Quem inspirou Caetano foi sua irmã. A música foi composta em 1969, em pleno regime militar, quando ele estava preso. Com saudade da risada da caçula, Caetano só pensava em sair de lá e reencontrar a família: “eu quero ir, minha gente / eu não sou daqui / eu não tenho nada / quero ver Irene rir”.

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Amélia – Mário Lago e Ataulfo Alves

A musa de “Ai, que saudades da Amélia!” é uma ex-lavadeira da família da cantora Aracy de Almeida. Seu irmão, Almeidinha, frequentava a mesma roda de amigos de Mário Lago, que sempre o ouvia dizer: “Amélia é que era mulher: lavava, passava…”. O comentário virou samba na mão do letrista, apesar de nunca ter chegado a conhecer sua inspiração. O sucesso foi tão grande que o verbete “amélia”, nos dicionários Houaiss e Aurélio, foi incluído como sinônimo de “mulher amorosa, passiva e serviçal”.

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E, para quem ficou curioso, a história de Helô Pinheiro, do jeitinho que foi contada em “Músicas e Musas”:
Heloísa Pinheiro andava todos os dias pelo bairro de Ipanema. Ela tinha apenas 15 anos quando atraiu os olhares de Vinícius de Moraes e Tom Jobim, que frequentavam o bar Veloso, onde a adolescente parava para comprar cigarros para a mãe. Os músicos ficaram impressionados com a forma como a simples presença de Helô chamava as atenções, e compuseram uma música que inicialmente foi chamada de “Menina que passa”. Logo alterada para “Garota de Ipanema”, a canção é um dos maiores sucessos brasileiros no exterior. Até hoje, ela faz parte da trilha sonora de filmes de Hollywood e é gravada por artistas reconhecidos. De Frank Sinatra a bandas japonesas, há mais de 500 versões registradas da música. A última é de Amy Winehouse, lançada em seu disco póstumo “Hidden Treasures”. Helô Pinheiro prestigia a homenagem – usa o nome Garota de Ipanema em sua grife de roupas.

Para fechar, um dado bem curioso: a palavra “música” vem do grego “musa”. Tudo a ver.

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