CANHOTO

Ao escrever recentemente um post sobre uma loja virtual para canhotos, citei de passagem um endereço que funcionou na Rua dos Pinheiros, em São Paulo. Mas não me lembrava do nome nem do ano exato. E não é que a dona da loja apareceu nos comentários do blog!  Em 1968, por causa de sua paixão pelos Beatles, a paulistana Theresa Carlota Oliveira escolheu a Inglaterra como destino para uma  viagem em comemoração à sua formatura na faculdade de Letras.  Na terra da Rainha, Theresa deu de cara com uma loja chamada “Anything Left-Handed”. A moça trabalhava na agência de publicidade Lintas e, durante anos, ficou com aquela ideia na cabeça. Dez anos depois, em 1978, ela inaugurou a Só Canhoto, a primeira loja especializada para canhotos do Brasil. A Só Canhoto ganhou até uma reportagem em Veja.

Theresa nasceu canhota, mas ainda na escola foi obrigada a aprender a  escrever com a mão direita. “Exatamente por saber como as crianças sofrem, minhas pesquisas para montar a loja começaram nas escolas”, conta. Theresa ia de colégio em colégio, contando quantos alunos eram canhotos ou ambidestros. Depois passou a procurar lugares que pudessem fornecer os objetos. As tesouras e os abridores de lata eram fabricados pela empresa gaúcha Tramontina. Os livros infantis e as canecas vinham  da Inglaterra. O único problema era com as tesouras infantis. “A Tramontina só fabricava em grandes quantidades, 50 mil ou 60 mil”, relembra. “Recorri a um ferreiro, que morava perto de casa, e ele mesmo começou a produzir para mim”. Produtos prontos, Theresa contou com a ajuda de uma amiga jornalista, que conseguiu divulgar a Só Canhoto em todo o Brasil. Quando expôs seus produtos na famosa feira UD (Utilidades Domésticas), Theresa ganhou ainda mais visibilidade. Convidou amigas canhotas que demonstravam o funcionamento de cada objeto, maravilhando o público. “Foi um sucesso”, diz, orgulhosa.

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Tudo ia muito bem. Encomendas chegavam de todas as partes do Brasil.  Quem embalava os produtos para enviá-los pelos Correios era a própria Theresa. Só que a procura acabou fugindo do controle. Foi aí que ela tomou uma decisão radical. “Fechei a loja pouco menos de dois anos depois”, lamenta. “Não tinha logística, eu fazia tudo sozinha. Fiquei arrasada”. Depois de fechar a loja, Theresa se mudou para Florianópolis. “Vim sozinha para a ilha. Fiquei hospedada na casa de algumas amigas e depois abri uma pousada por aqui”. A Rio Vermelho foi uma das primeiras pousadas na capital de Santa Catarina e ficou sob o comando de Theresa por 27 anos. Ela vendeu o empreendimento para empresários italianos, mas ainda vive em Florianópolis, num apartamento no centro da cidade. “Não voltaria para São Paulo, é tudo muito corrido”, diz. Hoje, aos 73 anos, ela se lembra orgulhosa da loja que marcou sua vida. “Se fosse hoje em dia, seria tudo mais fácil”.