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Ela aceitou o desafio de traduzir “Grande Sertão: Veredas” para o inglês

19 de novembro de 2016

“Grande Sertão: Veredas”, uma das obras mais importantes da literatura brasileira, está muito perto de receber uma nova tradução em inglês. A primeira, feita em 1963, seis anos após o lançamento no Brasil, é bastante contestada e já saiu de circulação. Com um vocabulário particular e de difícil adaptação aos outros idiomas, o livro de Guimarães Rosa é um enorme desafio para os tradutores estrangeiros. Acostumada a trabalhar com grandes autores brasileiros, a australiana Alison Entrekin, radicada no Brasil há 18 anos, aceitou o desafio. Depois de traduzir para o inglês livros como “Cidade de Deus” (de Paulo Lins, 1997) e “Budapeste” (de Chico Buarque, 2003), ela resolveu se debruçar nas páginas que narram a história de Riobaldo, Diadorim e companhia. São delas também traduções de obras de Clarice Lispector, Daniel Galera, Adriana Lisboa, Eva Furnari e Cristovão Tezza, entre outros. “Já traduzi autores espanhóis e portugueses, mas desisti porque não consigo extrair todos os aspectos culturais desses países”, declarou Entrekin ao Blog do Curioso.

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Alison Entrekin tem a missão de traduzir “Grande Sertão: Veredas” para o inglês (Foto: divulgação)

Alison, que no momento está terminando de traduzir “Meu Pé de Laranja Lima” (de José Mauro de Vasconcelos, 1968), passou os últimos dois anos buscando quem pudesse financiar o trabalho. “Quando me passaram o desafio, em 2014, eu tive que correr atrás dos financiadores”, explica. “Precisava pagar o salário dos colaboradores, que teriam que dedicar algum tempo para me ajudar. No início, tentei a Lei Rouanet, mas descobri que precisaria resolver muitos entraves burocráticos e acabei desistindo. Tentei também sites de crowdfunding (financiamento coletivo) até que pensei que seria melhor tentar um patrocínio”.
Agora, com o apoio do Itaú Cultural, finalmente o projeto poderá ser concluído. Mas não será fácil. “Logo que cheguei ao Brasil, tentei ler o livro e patinei, não consegui entender muita coisa”, conta Alison. “Nesse trabalho, eu penei muito para começar a tradução. O começo de um livro sempre é mais difícil, mas nesse foi mais ainda. Para ser bem sincera, achei que nunca ia conseguir viabilizar. Fui tocando, mas sempre achei que seria muito difícil”. Segundo ela, o próprio processo de tradução “dá um livro”, tamanha a dificuldade. “Na parceria com o Itaú, ficou decidido que faremos uma espécie de diário de tradução. Minha ideia é criar um blog ou uma página de Facebook, algo que me faça ter uma interação com o público”.
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Com todos os detalhes acertados, os trabalhos já podem recomeçar. “Falta traduzir praticamente o livro inteiro. Fiz pouca coisa e do que fiz já quero mudar bastante. Se você der um trecho para cinco brasileiros, terá cinco interpretações diferentes. Mas acredito que o Guimarães tinha algo em mente, então preciso extrair isso”, acredita a australiana. “Além disso, as quebras de sintaxe que dão um efeito em português, não dão o mesmo efeito em inglês. Então, preciso criar outras. Isso sem falar nos neologismos, nas aliterações. É mais que uma tradução: é uma recriação”, sintetiza. A obra de Guimarães Rosa, que “não tem nada a ver” com os romances que ela está acostumada a traduzir, deve ter um público bastante específico: “Não será um best-seller. Será um livro de leitura difícil, densa. Quem quiser uma versão fácil pode ler a de 1963. O leitor desse livro será um leitor acostumado a livros complicados”, garante.
Nem mesmo encontrar um nome para o livro será tarefa fácil. Em 1963, ele foi traduzido para “The Devil To Pay in the Backlands”. “The Devil To Pay” é um ditado que significa algo como “o diabo que pague”, enquanto “Backlands” significa “sertões”. Para Alison, James L. Taylor e Harriet de Onis encontraram uma boa tradução, convidativa para os leitores, mas que empobrece o conteúdo da obra. “Eu preferia manter o título em português, mas no momento temos “Bedeviled in the Badlands”, que eu considero bom. “Bedeviled” é um sinônimo para “perturbado”, mas tem ali também um “devil” (diabo), que aparece bastante ao longo da história”, diz ela. “Badlands” é uma paisagem muito semelhante a do sertão brasileiro.
Duas editoras internacionais já se mostraram interessadas em publicar a tradução.

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