Corria a leitura das notas do último jurado do quesito comissão de frente, o terceiro na apuração do desfile das escolas de samba do Grupo de Acesso, a segunda divisão do carnaval de São Paulo. Aos 68 anos, Antônio Pereira da Silva mantinha inalterada a força da voz que já havia anunciado 504 notas na apuração que consagrou a Acadêmicos do Tatuapé como campeã do Grupo Especial e outras 95 do Grupo de Acesso. Foi então que, na 96ª, o Mestre Zulu, como é conhecido, anunciou: “Pérola Negra: nota nove ponto nove”. Os integrantes lamentaram e a apuração seguiu. Ao final da leitura da nota seguinte, veio o anúncio de que, na verdade, essa nota da Pérola Negra havia sido um 9,7, e não um 9,9. Mestre Zulu havia lido errado.

Pode parecer um erro banal, mas foi inédito. Jamais, em 24 anos como locutor oficial da apuração do carnaval de São Paulo, Zulu havia errado uma nota: “Já troquei nome de escola várias vezes, já esqueci de falar o nome do jurado, mas nota eu nunca tinha errado. Sempre aviso para ficarem de olho porque eu posso errar. Tinha feito toda a apuração do Grupo Especial e aí veio a do Acesso. Estava esgotado. Todo mundo erra”, disse ele ao Manhã Bandeirantes, da Rádio Bandeirantes, com a tranquilidade de quem já passou por momentos turbulentos. Em 2006, na última e decisiva nota, ele pulou a Acadêmicos do Tatuapé e soltou o  seu famoso “Nota 10” que deu o bicampeonato para a Império de Casa Verde. Depois, voltou e anunciou o 9,75 da Tatuapé, deixando no ar a dúvida se havia invertido apenas a ordem da leitura ou as notas – fosse as notas, o título iria para o Vai-Vai.

PÉROLA NEGRA Sua trajetória reserva também confusões mais sérias. Já no seu primeiro ano, em 1993, um vazamento de notas antes da apuração fez com que o título fosse dividido entre o Vai-Vai e o Camisa Verde e Branco, sua escola do coração. De lá para cá, incontáveis confusões entre dirigentes interromperam sua leitura. Foi para cima dele que, em 2012, Tiago Ciro Tadeu Faria pulou para rasgar as notas que deram início ao maior tumulto da história das apurações. Acostumado com esse tipo de problema, Zulu festeja uma terça-feira gorda tranquila em 2017: “O título está bem entregue para a Tatuapé. Pegaram o asfalto quente e o beco estreito após a passagem da Vila Maria e mereceram. Até a última nota ninguém sabia quem tinha ganho. Nem eu!”, conta.

Apesar de uma vida toda ligada ao Carnaval, Zulu nunca viveu somente da festa. Nascido e criado no bairro da Barra Funda, dividia as idas à quadra do Camisa Verde com as aulas na escola e, posteriormente, com o emprego de técnico em radiologia e radiodiagnóstico. A oportunidade de ler as notas da apuração surgiu em 1993 e, desde então, a voz de Zulu só não foi ouvida na apuração de 1997. Sua voz ganhou fama nacional e ele se tornou um dos maiores personagens do samba paulistano, se tornando assim o Mestre Zulu, título que ele próprio rejeita: “Mestre pra mim, só Jesus Cristo. O resto é resto”, define.

O jeito um pouco arredio é outra marca registrada. Em 2014, chegou a expulsar o Globocop, helicóptero da TV Globo, da apuração: “Negócio é o seguinte: vai dar uma paradinha agora enquanto esse helicóptero não sumir daqui. Porque é impossível trabalhar desse jeito!”, disse ele com todos os microfones abertos. A preparação para garantir a voz impecável durante a leitura das notas envolve muito gengibre, nada de gelado nos 15 dias anteriores e boas noites de sono: “Se você está feliz, o trabalho sai”, ensina. Na hora de ler o que está escrito pelos jurados, ele faz um suspense quase insuportável para aqueles que esperaram um ano inteiro pela nota 10: “São coisas que você aprende ao longo dos anos”, diz ele.

De vez em quando, porém, o envelope chega sem a nota. No ano passado, um rigoroso jurado de evolução distribuiu notas baixas para quase todas as escolas, mas não escreveu a do Império de Casa Verde (apesar de apontar erros da agremiação em sua justificativa). O regulamento previa que, nesse caso, seria repetida a maior nota da escola no mesmo quesito. Com o 10 do terceiro jurado, a nota do segundo também foi máxima, iniciando assim uma grande confusão.

O mesmo aconteceu com a Dragões da Real no quesito harmonia, mas a escola levou azar: não tirou nenhum 10 e levou um 9,9 na “nota fantasma”, apesar do jurado ter escrito na justificativa que a escola cumpriu com todos os requisitos: “O presidente veio me questionar. Eu só leio! Chega o papel, não tem nada, eu deixo pra quem tem que de fato resolver”, se esquiva. Para esse ano, o regulamento foi alterado. Agora, em caso de esquecimento, somam-se as outras três notas e faz-se uma média aritmética. E não é que aconteceu de novo? Foi com a Unidos do Peruche no quesito harmonia. Como as outras três notas foram 10, ficou fácil: “Aí foi tudo resolvido”, alivia-se.

Zulu garante que o Camisa Verde e Branco é sua única paixão no carnaval – ele chegou a se candidatar à presidência da escola em 2010, mas foi derrotado por Ribamar de Barros. Apesar de ser corintiano doente, não tem nenhuma relação de amor com a Gaviões da Fiel: “Sou do tempo em que o carnaval era bom. Não estou dizendo que hoje é ruim, mas tinha coisa que era melhor”, diz, enigmático. A comemoração de 25 anos no posto de locutor oficial da apuração, no ano que vem, será com o seu Camisa no Grupo de Acesso. Apesar do grande desfile reeditando o samba de 2003, que narrou a história de João Cândido (o líder da revolta da chibata), o Trevo da Barra Funda terminou apenas em quarto lugar e disputará em 2018 a segunda divisão pelo sexto ano consecutivo.

(Com reportagem de Leonardo Dahi)