Meu filho mais novo é apaixonado por chuteiras – como tantos garotos hoje da idade dele. Conhece os modelos e, para me ajudar, diz o jogador que faz propaganda de cada uma. Esta é a chuteira do Cristiano Ronaldo, aquela é do Messi. Quanto mais colorida, mais ele gosta. Não faz muito tempo, saí com ele para comprar um par de chuteiras para mim. Era o presente que ele escolheu para me dar de Dia dos Pais. Escolhi uma toda preta e ele não se conformou. Expliquei para ele que queria lembrar de meus Kichutes. Ele achou o nome engraçado. Falei que era uma mistura de tênis e chuteira. Ali mesmo na loja entramos no Google e mostrei para ele como eram as “chuteiras do meu tempo”. “É a coisa mais sem graça que já vi”, decretou.

Meu primeiro par de Kichute chegou no aniversário de 8 anos, em outubro de 1972, junto com uma bola Dente de Leite. Lembro do cheiro de borracha e até das rebarbas do solado. Oito gomos que deixavam os meninos mais altos. Havia até uma lenda que dizia que, quando o Kichute era novo, o dono marcava mais gols de cabeça. Eu morava numa travessinha no bairro de Pinheiros, em São Paulo. A uma quadra de distância havia um terreno baldio, que virava o campo de futebol dos meninos das redondezas. O jogo acontecia no final do dia e era ali que estreávamos nossas chancas. Primeiro com pisões, que outros meninos davam sempre que aparecia um tênis novo no pedaço. Depois no terrão propriamente dito.

Os Kichutes reluzentes não ajudavam ninguém a ser escolhido antes. Eu continuava sendo um dos últimos. Mas, no meu íntimo, acreditava que poderia jogar melhor com minha chuteira nova. Isso nunca acontecia. Era até difícil jogar de Kichute de novo. Ele precisava ser muito gasto para ficar bom. Por isso não os tirávamos dos pés. Eles serviam para ir à escola, para a aula de Educação Física, para o futebol à tarde. E usávamos muito, até quase furar. Quando os tirávamos, na hora de tomar banho, o cheiro era tão forte que eles acabavam indo dormir na área de serviço, tomando um arzinho para a manhã seguinte.

Quem acha que o mundo hoje está polarizado deve se lembrar da época dos Kichutes. O mundo dos meninos era dividido em dois: aqueles que amarravam os longos cadarços no calcanhar e aqueles que amarravam por baixo do solado. Eu era do primeiro time. É nova essa história de que quem amarrava por baixo do solado era craque e no calcanhar, perna-de-pau. Naquele tempo, ninguém falava nisso. É coisa recente. Só sei que o nosso terreno baldio virou um prédio de 22 andares. Pendurei os Kichutes aos 14 anos. Mas, ao vestir minhas novas chuteiras pretas, me sinto um pouco voltando no tempo. Não foram muitos gols, nem muitos lançamentos ou assistências, nem tantos desarmes. Mas os Kichutes me fazem voltar para o tempo em que eu era um craque nos meus sonhos.