Agripina Duarte: a rainha do rádio paulista que nunca ouvi cantar

18 de junho de 2020
Agripina Duarte era irmã de meu avô, logo tia de meu pai ou minha tia-avó. Os Duarte não eram de festas, se encontravam raríssimas vezes, geralmente em velórios. Por isso, vi pouquíssimas vezes tia Agripina. Ela morava num apartamento na Rua Barão de Limeira, que passou a dividir com o irmão Ladislau, depois que ele se separou.

Ladislau, que chamávamos carinhosamente de “Lalau”, era com quem tínhamos mais contato em casa. Tanto que ele virou personagem de meu primeiro romance juvenil, “Jogo Sujo”. O que eu sabia da reclusa “Tia Pina” é que ela vendia roupas em seu apartamento. O impressionante é que, só muitos anos depois, é que fui saber a grande cantora que ela foi.

Agripina Duarte da Fonseca nasceu em Dois Córregos, no interior de São Paulo, em 7 de novembro de 1918. Teve 8 irmãos: Arthur, Emília, Agenor [meu avô], Gervásio, Luiz Gonzaga, Ayres, Ladislau e Aparecida. Em 1925, a família se mudou para a capital, instalando-se no bairro da Penha. Foi numa igreja local que Agripina começou a mostrar sua voz ao público. Apesar de pequenina, quando abria a boca, ela soltava um vozeirão.

Agripina (à esquerda) aos 3 anos, com dois de seus irmãos


A descoberta aconteceu em 2013, quando recebi o livro “A dinastia do Rádio Paulista”, escrito pela jornalista Thais Matarazzo e pelo historiador Valdir Comegno. Agripina Duarte, que nunca ouvi cantando, foi umas das rainhas do rádio de São Paulo. Os trechos em itálico são do livro de Thais e Valdir, que contaram uma parte da história de minha família.

Aos 12 anos, em 1930, Agripina Duarte conseguiu um espaço na Rádio Record. Ela já morava na Barra Funda, onde floresciam as primeiras raízes do samba paulistano. Os desfiles carnavalescos do Cordão da Barra Funda, por exemplo, podem ter sido influência chave na formação musical da cantora.

Agripina na Rádio Record



No ano seguinte, 1931, Agripina trabalhou na Rádio Cruzeiro do Sul, onde conheceu o cantor Paraguassu, que se encantou pelo talento da ainda menina cantora. Ele foi responsável por tirar Agripina do anonimato. Em 1932, ela retornou à Rádio Record, onde permaneceu até o fim de sua carreira. Não demorou muito para que sua voz chegasse à então capital do País, Rio de Janeiro. A revista carioca Malho, em agosto de 1934, publicou um pequeno perfil da cantora de rádio: “Agripina: 16 anos vestida de grande. É cantora de sambas e marchinhas. Muita gente diz que imita Carmen Miranda. Não é verdade. (…)”. Em 1935, entre outros cantores do rádio, Agripina Duarte participou do filme musical “Fazendo Fita”, de Vittorio Capellaro. No auge de sua carreira, a primeira rainha do rádio de São Paulo ganhava 300 mil réis por mês, o maior salário entre os funcionários da Rádio Record.

Tia Pina teve uma única filha: Maria Cristina Gama Duarte, diretora da revista “Cláudia” e minha maior inspiração para seguir a carreira de jornalista. Eu ainda era adolescente e a história da família ainda não era um assunto que me interessava. Sabia apenas que tia Pina tinha sido casada com Raul Gama Duarte, grande nome do rádio e um dos pioneiros da TV.

Em 1936, Agripina Duarte garantiu, em entrevista à revista “Carioca”, que nunca abandonaria a carreira no rádio: “É minha verdadeira adoração”. Na matéria, o repórter Jorge Lima reforça a popularidade e talento de Agripina: “Esta garota que ainda não tem 20 anos é, com efeito, a cantora mais popular, mais querida e de melhor voz de São Paulo”. Não tardou, no entanto, para que a moça quebrasse sua promessa. No mesmo ano, ela engatou um namoro com o radialista Raul Duarte. É provável que o romance tenha sido responsável por fazer Agripina recusar uma proposta de compor o quadro de cantores da Rádio Nacional, no Rio de Janeiro.



A partir de 1937, Agripina foi, aos poucos, abandonando a carreira no rádio. Isso abriu espaço para que Isaura Garcia tomasse seu posto de rainha. No ano seguinte, casou-se com Raul Duarte e decidiu se dedicar ao cuidado da família. O casal teve uma única filha, Maria Cristina, que mais tarde se tornaria jornalista. Em 1951, quando a menina tinha apenas 4 anos, Raul e Agripina se separaram. Ela faleceu aos 60 anos, em 13 de agosto de 1979.

Quando ficou doente, no final da vida, Tia Pina foi morar com Maria Cristina e o marido, o também jornalista Celso Kinjô, num apartamento na rua Padre Antônio Tomaz, ao lado do Parque Antarctica. Da janela do apartamento, dava para ver metade do campo do Palmeiras. Ela morreu quando eu tinha 14 anos – e nunca a ouvi cantar.

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1 Comentários

1 Comentário

  1. Rosana Faber

    Marcelo! Minha avó Ida Ferreira Guedes era irmã de Marina Ferreira Duarte, esposa de seu tio-avô Luiz. Mesmo sendo de famílias diferentes, minha avó frequentava muito a casa da “tia Agripina”, como ela costumava chamá-la. Eu também sou jornalista e, há muito tempo, quando a Maria Cristina era da Revista Claudia, minha avó me levou lá e eu fiz alguns frilas para a revista. Adorei o artigo. Sou fã! Abraços! Rosana

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